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A BIOGRAFIA DE UM HERÓI - Parte I

Meu nome é Rodrigo Sividanes, sou ex-socorrista.
Doei a minha saúde para salvar uma vida.

Foi assim:
Em maio de 2015 fui fazer um resgate na região do Paraíso atender a uma senhora extremamente obesa com traumatismo craniano.

A senhora havia escorregado no tapete da cozinha, bateu a cabeça na pia, quebrou o braço e teve traumatismo craniano.

Cheia de dores e terrivelmente machucada, apavorada, pois sangrava muito, conseguiu se levantar contrariando todas as dores e as dificuldades que sua triste situação lhe impunha.

Se dirigiu cambaleando até o apartamento de sua vizinha.

Ao tentar pedir por socorro, escorregou em seu próprio sangue que esvaia de sua cabeça fraturada.

Sem o apoio de seu braço, que jazia quebrado, acabou ficando presa no vão da escadaria de ferro e ficou dependurada do lado externo do prédio.

Ela gritava por socorro freneticamente, desesperada!

Os vizinhos, vendo aquela situação terrível chamaram o resgate.

Naquele momento, estava vindo de um outro atendimento pela avenida Santo Amaro, quando recebemos o chamado.

Prontamente, eu, que era perito em direção de ambulância, não exitei em pisar fundo no acelerador para atender esse chamado.

Meu parceiro estava tenso, ainda. E era franzino, e eu, que sempre fui praticante de artes marciais, bastante forte, o encorajava a todos os momentos para que conseguimos salvar mais uma vida naquele dia frio.

Era madrugada, perto de duas horas da manhã. Lembro que tomávamos bastante café para espantar o frio e permanecermos em alerta.

Ao atravessar a zona sul da cidade, lembro que não gastei mais de cinco minutos para chegar até o local do acidente.

Quando chegamos ao local, preparamos todos os apetrechos necessários: Prancha, mochila, colar cervical, ataduras, suportes pra fraturas, ambu, maca, cilindro de oxigênio pequeno e, dentre outros, a cadeira, esta que não subia a escadaria.

Infelizmente, pela negligência e falta de empatia das pessoas que se dizem normais, o prédio não foi projetado para que TODOS pudessem habitá-lo, independentemente de suas peculiaridades.

Subimos a escadaria correndo freneticamente, não poderíamos aguardar o elevador, não havia tempo hábil, e, mesmo que houvesse o material não passaria pela porta.

Dava pra ouvir de longe os gritos da pobre mulher, que chorava freneticamente e clamava por Deus como último alento que encontrava.

Quando chegamos até ela, a cena era terrível, eu, experiente que era, fiquei chocado com a cena, e meu coração treinado pra ser frio palpitava bastante, tanto da corrida pela escadaria, quanto pelo desespero da mulher.

Prontamente realizamos os procedimentos iniciais, como: aferir pontos vitais e tranquilizá-la.

Olhei no fundo de seus olhos e ela gritava pra mim:

- Me ajuda! Me ajuda! Pelo amor Deus!

E eu respondi em tom brando:

- Calma senhora... Pode ficar tranquila que você está em boas mãos!

Fizemos os procedimentos de imobilização e pranchamo-na.

Nisso, nós que estávamos em uma posição totalmente desfavorável, já que era escada e eu estava agachado e puxando-a.

Meu parceiro estava ao meu lado, na parte mais alta da escada.

Ao terminar os procedimentos, quando fomos puxá-la pela prancha, meu parceiro não suportou o peso da pobre mulher... E acabou soltando!

Ao perceber que a mulher ia despencar em queda livre do quinto andar do prédio, e que essa queda seria fatal, imediatamente, sustentei todo o peso da mulher nos meus braços e puxando-a pra trás, fiz um pêndulo pra trás como uma vara de pescar.

O que resultou em um ESMAGAMENTO DA MINHA COLUNA de L5 a S1 (Lombar 5 à Sacra 1).

Consegui puxar a mulher que ficou em segurança, ainda consegui levá-la até a ambulância e fui dirigindo até o hospital Santa Catarina, que era o mais próximo, em altíssima velocidade.

Respirei aliviado, havia salvado mais uma vida, mal sabia eu, até então, QUE SERIA A ÚLTIMA VIDA QUE EU CONSEGUIRIA SALVAR.

chegando à base, minhas costas pegavam fogo como se a fogueira do inferno ardesse dentro de mim. E minhas pernas formigavam.

Virei para o meu parceiro e disse com a voz embargada:

- Vou deitar um pouco no "conforto" - que é como é chamado o lugar onde descansam os socorristas.

Ele acenou que sim com a cabeça, e eu continuei:

- Vou levar o NEXTEL comigo, se tocar alguma coisa, eu já recebo por lá.

Coisa de dez minutos... O rádio toca:

- Q.A.P Sividanes! Na escuta? Brevidade total! VERMELHO! VERMELHAÇO!

O rapaz ainda brinca:

- Vamos lá nº 01, em tempo e resposta!

Como de costume, prontamente, fui levantar.

E esse foi o momento do maior terror que senti em toda a minha existência... MINHAS PERNAS NÃO RESPONDIAM!

O rapaz achou que era brincadeira minha e corpo mole.

E eu gritando no rádio, respondi:

- MINHAS PERNAS NÃO ESTÃO FUNCIONANDO!!!

Tamanho o desespero que senti. Logo meu parceiro veio até mim, e o rapaz da central me questionava duramente achando que eu estava fazendo "corpo mole".

Eram quatro e meia da manhã.

Meu parceiro que já tinha já tinha vindo a meu encontro aferiu o meu "travamento". E imediatamente abortou a missão.

Solicitaram a UTI Móvel para me levar ao hospital.

Depois disso, medicado e levado para minha residência, aguardei a cirurgia de coluna que demorou UM ANO para acontecer.

Ressonâncias, Raios-X, Neurocirurgião, translados, injeções, calmantes, morfina, TILEX, TRAMADOL até o dia da tão esperada cirurgia.

O médico que me acompanhava me disse em tom de desolamento:

- Ou você faz a cirurgia e corre o risco de morrer, ou fica em uma cadeira de rodas para o RESTO DE SUA VIDA!

Devido à minha idade e ser um fumante de longa data, escolhi a cirurgia por já sentir na pele o que é depender dos outros para TUDO.

Mesmo assim, na hora da cirurgia, tive parada cardíaca, fui ressuscitado, me entubaram, me reanimaram e acordei no quarto do hospital, SOZINHO.

Por não saber o que havia se passado, cheio de aparelhos pelo corpo, desesperado, arranquei todos eles de mim, aquilo me incomodava muito!

Eu que sempre fui um homem forte, sempre fui provedor, sempre auxiliador... TINHA ORGULHO DE SER SOCORRISTA e LUTADOR!

Eu que salvei a vida de tanta gente, agora não podia nem salvar A MINHA PRÓPRIA VIDA!

Após arrancar os tubos, logicamente, houve sangramento e eu estava morrendo engasgado no meu PRÓPRIO SANGUE!

Quando olhei sem ar para a porta, e vinha entrando a MINHA SALVADORA. Não a vi entrar, estava zonzo, minha vista estava escura. O nome não poderia ser diferente disso: SOL.

Já cianótico, ela me desentalou e chamou os médicos.

Fiquei internado. A cirugia havia sido um SUCESSO!

Fiquei feliz, por um instante.

Mesmo internado no hospital, fui bem tratado, afinal, estava em um excelente hospital. O PAULISTANO.

Fui pra casa de alta, havia recuperado os movimentos, ainda de cama, esperando a musculatura voltar para o lugar.

Estava feliz... De certa forma. Estava com minha mulher, meu filho pequeno que tinha oito anos na época, Augusto. Foi ele que me inspirou a lutar. Eu precisava ver meu filho crescer. Precisava ensiná-lo a ser um homem de coragem, justo, honesto, forte... COMO O PAI!
Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 01/08/2019
Código do texto: T6709581
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Graciliano Tolentino
Bertioga - São Paulo - Brasil
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Graciliano Tolentino

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