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AMAZÔNIA V

AMAZÔNIA V

Nelson Marzullo Tangerini

               De São João do Araguaia, Nirton, Cícero [com seu uniforme da Polícia de Goiás] e eu seguimos para Marabá. Ainda em São João do Araguaia, o caminhão teve de parar, em plena Transamazônica, para que a carga e nós fôssemos revistado pelo Exército Brasileiro.
                Enquanto isto, víamos inúmeros caminhões carregados de toras de madeira da floresta passarem pela rodovia, em direção a não sei onde.
                Em pé, na boleia do caminhão, meu irmão tira sua filmadora, comprada na Zona Franca de Manaus, quando lá estivemos, em 1975, e começa a filmar a floresta. Um soldado pede para descermos e caminharmos em direção a uma sala, dentro do quartel, onde seríamos interrogados, porque, naquele local, qualquer filmagem ou fotografia estavam proibidas. Talvez pelo fato de a Guerrilha do Araguaia, que ali acontecera, ainda fosse recente e cheirasse a cadáver.
                  Primeiro, pediram nossos documentos. Depois, perguntaram o que fazíamos. Meu irmão informou-lhes que era professor de biologia, enquanto eu... bem, eu... era estudante de jornalismo, o que fez o sargento torcer o nariz. O militar nos perguntou por que filmávamos naquele local. Meu irmão explicou-lhe que pretendia mostrar o filme a seus alunos.
                   Enquanto isto,  os rapazes do caminhão e Cícero continuavam esperando por nós numa baia, na frente do quartel, o mesmo quartel que fez o “serviço” em Xambioá.
                   Em meio àquele interrogatório, lembrei-me que trazia uma agenda em minha mochila. Dirigi-me ao sargento, dizendo-lhe que tínhamos um primo coronel do Exército em Brasília e que eles podiam telefonar para ele e lhe pedir informações a nosso respeito. Neste momento, um soldado ficou tomando conta de nós, enquanto o sargento ligou para Gustavo Bandeira de Mello, marido de nossa prima, a pintora Neusa Tangerini d´Arcanchy, que lhe assegurou que éramos pessoas “do bem” e que estávamos naquele local apenas por motivo de viagem.
                   O sargento retornou, devolveu nossos documentos e a filmadora e nos liberou, educadamente, para seguirmos viagem.
                  Almoçamos em  Marabá e demos um giro pela cidade, onde vimos índios caminhando pelas ruas a caminho do posto da FUNAI, onde costumavam se vacinar ou pedir remédios. Que me perdoem os marabaenses, mas não havia muito o que ver, naquela cidade, naquela época, e resolvemos partir.
                  Quase no final da tarde, resolvemos retornar para Araguatins e conseguimos carona numa Kombi com placa de Tucuruí que ia de Marabá para Araguatins. Na estrada, o motorista de um caminhão não deixava que o motorista da Kombi em que viajávamos o ultrapassasse. E, algumas vezes, tentou fechar a Kombi, na tentativa de jogá-la num barranco ou num rio. Estava na janela e fiz um gesto obsceno com as duas mãos para o motorista do caminhão, que tornou a nos fechar, impedindo nossa passagem. O motorista saiu do caminhão com uma barra de ferro na mão e querendo briga. Queria que eu lhe explicasse, em plena transamazônica, o que queria dizer aquele gesto. Naquele momento, Cícero [com uniforme da Polícia do Estado de Goiás] puxa sua arma, aponta-a para o motorista, ameaça prendê-lo e o ordena a seguir. E o motorista o obedeceu. Nem lhe passou pela cabeça de que Cícero não tinha autoridade alguma dentro do Estado do Pará.
               Na volta, pela Transamazônica,  caminhões carregados de toras de madeira da floresta passavam por nós, sem que ninguém tomasse qualquer atitude.
               De volta a Araguatins, eu me envolveria em outra nova confusão. Na noite do dia seguinte fazia muito calor na cidade e eu saí sozinho para beber algo. Encontrei um bar aberto, com um bom grupo de pessoas, e ali fiquei. Fiz amizade com um senhor e sua esposa, que vieram beber comigo.  Em dado momento, fiz uma crítica ao prefeito da cidade e enumerei uma lista de coisas erradas que havia visto na cidade. Em dado momento, perguntei-lhe quem era o Prefeito de Araguatins. “- O prefeito de Araguatins sou eu” – ele me respondeu. E o clima ficou tenso. Não sabia onde enfiar minha cara. O prefeito pagou a minha conta e, logo após, obrigou-me a subir na capota de seu jipe. Segundo ele, eu iria conhecer a cidade sentado do alto de seu carro. Em alta velocidade, ele entrava em diversas ruas cantando pneu, enquanto eu temia cair e me machucar. E depois concluiu: “- Isto é para você não falar o que não deve na terra dos outros”.
                Felizmente, saí vivo daquela encrenca e me tornei mais cauteloso com as palavras, depois daquele susto; afinal, a ditadura, mesmo que estivesse nos últimos estertores, ainda era capaz de dar sustos em qualquer jornalista, mesmo que tivesse mais experiência.
                 Antes de viajarmos para o norte do estado, passamos dois dias numa fazenda de parentes de Juarez e Cícero, onde tomamos banho num córrego e, à noite, dormimos numa cocheira junto com cavalos. Os rapazes dormiam em redes ou em cima de sacos de ração, enquanto as moças dormiam dentro de casa.
                   Só mais tarde, porém, os moradores da fazenda vieram me dizer que o tal córrego em que me banhara costumava ter piranha. Depois dessa, não iria me banhar duas vezes no mesmo córrego, e preferi tomar banho de balde.
                   Um dos filhos do fazendeiro manifestou desejo de tentar a vida na cidade grande. O pai concordou e ele viajou conosco para o Rio, mesmo sendo menor. Não me lembro de seu nome, mas a família o chamava de Branco. E assim o chamávamos também.
                 De Araguatins, seguimos viagem para Axixá, mais ao norte, no Bico de Goiás [hoje, de Tocantins], quando faríamos a travessia de balsa, no Rio Tocantins, em direção a Imperatriz, cidade do Estado do Maranhão.
                   Ao chegarmos a Imperatriz, fomos direto para a rodoviária da cidade, com a intenção de comprar uma passagens para Brasília, uma vez que não havia passagens para o Rio. Compramos passagem para um ônibus que vinha de São Luís em direção ao Distrito Federal. Fomos surpreendidos com um violento tiroteio dentro da rodoviária. Informaram-nos que a cidade era violenta e que, nela, havia escritórios do crime organizado, onde se podia contratar um pistoleiro para matar alguém. Neste escritório, diziam, havia uma tabela de preços, que varia de acordo com a posição do indivíduo que deveria morrer: um padre tinha um preço, uma freira, um líder sindical e uma liderança indígena tinham outros.
                     Enfim, dormimos em Imperatriz, na casa de amigos maranhenses e, no dia seguinte, dávamos adeus à nossa aventura, atravessando o Maranhão, um pedacinho do Piauí, a Bahia e o nordeste de Minas Gerais, chegando, por fim, a Brasília, onde dormimos na casa de nossa prima Nancy Tangerini d´Arcancy França, para, no dia seguinte, seguirmos de avião para a Cidade do Rio de Janeiro.


               
Nelson Marzullo Tangerini
Enviado por Nelson Marzullo Tangerini em 07/09/2019
Reeditado em 08/09/2019
Código do texto: T6739559
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Sobre o autor
Nelson Marzullo Tangerini
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
310 textos (23957 leituras)
9 e-livros (126 leituras)
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Nelson Marzullo Tangerini