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ALEGRIAS E DESDITAS DE SETEMBRO

ALEGRIAS E DESDITAS DE SETEMBRO



Hoje é dia 11 de setembro e, tendo vindo ao mundo em um mês de setembro, desde cedo me acostumei ao prazer de desfrutar as alegrias desta quadra do calendário. “Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos, quero ver brotar o perdão”, dizia a música que parecia retratar com fidelidade os dias radiosos do mês que prenunciava o verão no Nordeste: “Vamos abraçar o sol”, dizia uma propaganda da Prefeitura do Recife, alusiva aos primeiros dias do mês de sete da década de 80. Por essas circunstâncias, evidentemente que muito mais pela data de nascimento, o mês de setembro sempre me pareceu tempo de alegrias e de esperanças. Setembro sempre fora os domingos de sol na praia da Boa Viagem, em Recife, dias de jogar futebol ou ir à Ilha do Retiro assistir aos jogos do Sport, nas tardes daqueles domingos. Setembro era, também, as noites quentes, amainadas pela brisa suave que varria a Praça Maciel Pinheiro.  Pode acreditar, desocupado leitor, era asensação de alívio provocada por um simples banho frio. Era o caminhar sob o sol escaldante do Colégio Radier, na volta para casa.Os dias de setembro até pareciam maiores. Assim vivenciei incontáveis dias de setembro. Hoje, mais maduro, fico desolado com a permanência do frio e das chuvas durante o mês e, por acaso, dando uma olhadela numa página tipo “aconteceu há 50, 25, 15...05 anos atrás”, tomo consciência de que foi num dia destes, há 50 anos atrás que morreu JOSÉ LINS DO REGO, autor marcante na minha formação intelectual, a ponto de me sentir íntimo de alguns de seus personagens. Morreu moço, depois de uma agonia prolongada causada pela cirrose. Uma tristeza, que agora repercute em mim. Mas, não bastasse isso, foi também num dia de hoje, que uma figura quase mitológica para minha juventude, suicidou-se para não cair nas mãos sujas de seus algozes: ALLENDE, o Presidente do Chile que foi traído pelo exército e por seu comandante. Recordo-me de sua figura circunspecta, cobrindo a cabeça com um capacete e uma metralhadora na mão caminhando desoladamente entre os escombros  do palácio La Moneda, que estava sendo  bombardeado pelo Exército. Não precisava mais nenhuma tristeza para o mês de setembro revestir-se de cores sombrias, mesmo assim, minha maior lembrança destes dia é e, será sempre, do ataque às torres gêmeas de Nova Iorque (11/09). Um crime contra a civilização. Pior é que o ataque foi uma resposta às violências praticadas pelos Estados Unidos contra várias nações do mundo, nas últimas décadas, numa clara demonstração de incapacidade de solução pacífica dos conflitos da geopolítica mundial. Pensando em  todos esses fatos, é que me dei conta de que muita, mas muita desgraça mesmo, aconteceu em setembro (assim como em todos os dias do ano, eu sei). Não sou místico e sei que o tempo é um só, objetivo e não contém nenhuma subjetividade. O tempo não é melhor ou pior, per si, é apenas o tempo, algo que acontece sem qualquer interferência humana, exceto sua contagem. Mesmo não tendo nada de místico,  sei que ultimamente os esotéricos e boa parte da população anda inclinada a creditar ao tempo certas mazelas e infortúnios vividos pela humanidade, em virtude do alinhamento (melhor seria dizer desalinhamento) deste ou daquele astro. A espécie humana, vencedora de todas as batalhas contra a natureza e os astros, infelizmente, parece que não se dá conta de que o tempo é senhor de si mesmo, porém, é despossuído de vontades e qualidades (e precisava? Poderiam perguntar). Mesmo despido de desejos, reconheço que o tempo é senhor da vida e não precisava mesmo destas qualidades, pois, afinal, é como o ditado diz: “Cavalo que voa não pede espora.”. Despeço-me deste setembro, afirmando ao eventual leitor desta crônica, desejando-lhe  bom dia ou boa noite, conforme seja a hora.
Augusto N. Sampaio Angelim
São Bento do Una/PE. Set.07
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 01/10/2007
Reeditado em 15/03/2008
Código do texto: T676646

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Sobre o autor
Augusto Sampaio Angelim
São Bento do Una - Pernambuco - Brasil, 56 anos
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Augusto Sampaio Angelim