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A Língua Envergonhada _1

      Há alguns anos, um grande escritor brasileiro revelou uma experiência interessante. Encontrava-se em Nova York e - não se sabe como - uma carta dos Correios do Brasil fora parar por lá. Um carteiro americano, sabendo que ele era brasileiro, perguntou-lhe: “Há uma cidade no Brasil chamada Quempainas?” O escritor não se lembrava de nenhuma cidade brasileira com esse nome e pediu para ver o envelope. Lá estava escrito: “Campinas”. Moral da história: o carteiro americano nem por um minuto preocupou-se em saber como soava aquele nome estrangeiro e deu-lhe logo a correspondente pronúncia em Inglês.
      Assim fazem quase todos os países cuja consciência nacional elege o idioma pátrio com um dos seus símbolos mais importantes, até porque a língua - além da cultura e da história – é marca indelével de uma soberania nacional.
      Para início de conversa, esclareço que não sou – e nunca fui – um xenófobo. Para mim, o que é bom é bom, não importa que seja nacional ou estrangeiro. Mas, por Deus e todos os diabos, eu realmente não entendo essa nossa preferência subserviente por termos estrangeiros, tão subserviente que às vezes ficamos dependentes desses termos, mesmo que haja os seus correspondentes em língua nacional.
      Eu poderia até dizer que nos meus tempos de infância e juventude era pior. O cinema era “cine”, a estréia do filme era sempre “avant premiére” , o puteiro era “rendez-vous”, o motel era “chateau”, o futebol ainda era “football” – e aqui era horrível: o locutor era o “speaker”, zagueiro era "fullback", meio de campo era “centerhalf”, escanteio era “corner”, gol era "goal" e, somente por coincidência de pronúncia, ”team" virou time mesmo. Nessa época, camisola era “pegnoir”, mas a calcinha, ó grande vingança, chamava-se sunga, derivado do africano “kussunga”.
      Mas não posso dizer. Porque veio a Internet e, para delícia dos envergonhados da língua, encheu-nos de inglesismos: e-mail, e-book, site, profile, scrap, lan house, só para falar dos mais usados e perfeitamente traduzíveis. Amaldiçoados sejam vocês, puxadores de saco dos americanos! Por que não dizem simplesmente correio eletrônico, livro eletrônico, local, perfil, recado e casa de Internet?
      De modo que, como a Internet está caminhando para se tornar o meio de comunicação mais usado do mundo, daqui a alguns anos quem não dominar o idioma inglês vai se dar mal, pois, como bem disse o Chacrinha: "Quem não não se comunica, se trumbica."
      Anos atrás, assim que me mandaram um convite para o Orkut, fiquei literalmente louco. Entrava nas páginas de alguma bonitona e lá estava: “Não aceito add sem scrap. Por favor, não insista”. Que era aquilo? Não domino o Inglês e nessa época eu era AIOS (Anta Internauta Operando Sistemas). Logo percebi que o “add” era adicionar, ser amigo da rede da fulana, mas scrap, o que seria, uma foto talvez? Meti o dedo no Google, fiz exaustiva pesquisa, encontrei milhares de páginas que falavam em scrap, mas nenhuma, com mil demônios, nenhuma traduzia o palavrão. Até que tasquei para uma bonitona: “Tu és muito gostosa”. E ela respondeu: “Teu scrap foi muito ousado. Posso até ser gostosa, mas sou casada, sacou?” Estava resolvido o meu problema linguístico e eletrônico! Mas a bonitona excluiu-se, furiosa, da minha página...
      Agora, cá entre nós, que a dona fale em “swing”, “ménage à trois”, para esconder a sua preferência pela avacalhadíssima prática da suruba até que se explica, não é mesmo? Mas justifica?
      E então, eu, que sou conhecido por estas bandas como um velho nacionalista, chato e brigão, fui, alguns anos atrás, a uma loja de discos, à procura da música “My Love”. Perguntei à balconista:
      - Qual é o disco que tem a música Mi Love?
      A mocinha sorriu, penalizada:
      - Não é Mi Love é Mai Love...
      Eu sorri, mais ainda:
      - Amorzinho, no Brasil, onde, por acaso, você vive, “m” com “y’ só pode soar “mi” e não “mai”. Além disso, o dinheiro é meu e a música que eu procuro é Mi Love! Tem ou não tem?



Antonio Maria S Cabral
Enviado por Antonio Maria S Cabral em 04/10/2007
Reeditado em 13/10/2011
Código do texto: T679954
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Antonio Maria S Cabral
São Luís - Maranhão - Brasil
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Antonio Maria S Cabral