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Brincar de Sultão

Brincar de Sultão

Tenho uma filha com 20 anos, gaiata que só ela.
Dia desses veio me pedir auxílio moradia.
O valor? Quatro mil reais.
Eu assustei.
 - Filha, quatro "pilas" é muita grana. Ela ficou muito chateada e indagou:
 - Acaso acha que não mereço, pai?
Pegou-me de surpresa, eu disse a ela que sim, ela merecia, mas que eu não tinha condições de pagar esse valor.
Cocei a cabeça e pensei: Essa menina quer aplicar em mim... Ora, ela tem casa, tem onde morar, como vem me pedir auxílio moradia?
A garota parece que leu meu pensamento em mandou:
 - Mas, pai, os juízes recebem esse auxílio moradia. Eles podem e eu não?
Ah, eu que gosto de futebol fiquei indignado com aquela comparação e joguei na cara dela, sem piedade:
 - Você acha que é moleza, minha filha, apitar um jogo de futebol debaixo do sol escaldante? E as agressões, você sabe bem o que passa um juiz, como a mãe dele é "homenageada" pelos torcedores?
Ela sorriu e me corrigiu:
 - Não são esses juízes, pai. Refiro-me aos magistrados, aos que ganham uma boa "bufunfa" por mês.
 - Entendi, minha filha... mas vamos mudar de prosa, porque eu não tenho como te ajudar com esse auxílio moradia.
Ela, então, veio-me com essa:
 - O Brasil consegue pagar e o senhor não?
 - Filha, sabe como é, ganho pouco, o Brasil tem de onde tirar, arranca do povo, aumenta impostos, tributa a coxinha e a mortadela, mas eu não posso arrancar do patrão à força. Esqueçamos isso, minha filha... Diga-me, qual profissão pensa em seguir?
Ela me respondeu de forma categórica:
 - Quero ser presidente da República!
Eu me espantei. De onde essa menina tirou isso? Ela tratou logo de explicar:
 - Quero ser presidente porque, quando me aposentar, deixar o cargo, terei 8 funcionários a meu dispor e dois carros oficiais, um eu uso e outro empresto para meu filho.
Dei risada.
Mas não é que a ideia dela é boa. Como eu nunca havia pensado nisso antes? Sim, deveria ter estudado para ser presidente da República, justo eu que sempre quis ter vida de rei, ser servido por muitos empregados e andar de carruagens oficiais. Fiquei com inveja da minha filha, de suas ideias e criatividade. Mas, como nunca é tarde para aprender decidi pesquisar e ver como eu faria para ser presidente da República.
Um amigo me disse:
“Antes você terá de decidir se é direita ou esquerda”.
Respondi:
 - Bem, eu sou direita, aliás, marquei muitos gols de direita quando defendia as categorias de base do vermelhinho mais querido do mundo.
Ao escutar vermelhinho ele me disse:
 - “Então você é esquerda, tudo que é vermelhinho é de esquerda.
Fiquei a pensar:
 - E o papai Noel, será ele de esquerda?
Bom, deixa pra lá, esse pessoal adora arrumar rótulos. Só sei que depois de um tempo pesquisando sobre como ser presidente da República descobri que é tudo polarizado e gastronômico. Ou é mortadela, ou é coxinha.
Como decidir, justo eu que gosto dos dois?
Pois sim, decidi que não queria ser mais presidente da República, melhor deixar pra minha filha...
Ela, jovem ainda, cheia de gana e vontade de vencer, quem sabe consegue uma boquinha dessas e me empresta um carro oficial e uns dois funcionários... Aí sim minha vida ficará boa, pois poderei brincar de sultão...
Wellington Balbo
Enviado por Wellington Balbo em 28/11/2019
Código do texto: T6805760
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Sobre o autor
Wellington Balbo
Bauru - São Paulo - Brasil, 46 anos
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