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A REVOLTA DAS BORBOLETAS

A tropa segue devagar mugindo tonta
Talvez pressinta que seu fim é o matadouro
E o tropeiro entristecido se dá conta
O boi é bicho mas tem alma sob o couro... [José Claudio Machado]

 A natureza bovina de uma rês, quando não perturbada em sua cômoda cama verde de ostracismo, raramente reconhece o direito ao conforto, à equitativas reivindicações e o acesso à prerrogativas. Um açude de água barrenta, um punhado de grama amarelada e um pouco de sal são o suficiente para mantê-la dócil e de cabeça baixa, sem que ouse cometer a indisciplina de olhar a linha do horizonte.
 
A história pastoril mostra que raríssimas foram as vezes que quadrúpedes enfrentaram efetivamente os responsáveis pela sua situação de massa de manobra ou bando. E quando o fizeram, foi mais por heroísmo deste ou daquele gado – isolado - do que pela força – tão difícil de ser conquistada quanto necessária para uma efetiva mudança - duma união inteligente e eficaz de todo o rebanho que pena subjugado.
 
Sunt Tzu, se vivo estivesse, com certeza diria que um sinal de alerta de um corvo, que paira um pouco acima, aproveitando a térmica de ar quente, não deveria ser subestimado.

A negligência com o pasto e a água para o gado servil aproxima-se perigosamente da linha limítrofe da cerca de arame farpado que separa a subserviência cega da rebeldia lúcida e organizada. Que separa o espirito de zebra da alma de leão.
 
E por mais que não seja característica da manada uma desobediência articulada e inteligente; as somas de fatores que desfavorecem a sensação de paz e segurança no pasto, já estão contaminando e comprometendo seriamente a qualidade da carne, do leite e do queijo consumidos pela nutrida nobreza do alto da colina.

E isso poderá levar - triste e inevitavelmente - à perdas, ruína e até a morte não só do gado, mas inclusive, de alguns donos de fazenda.

Quer sejam infectados pela febre duma carne adoecida, quer sejam pisoteados por patas cambaleantes, quer sejam dilacerados pelos dentes dos cães pastores que indignados com toda demagogia que ouvem e veem de quem muito fala, mas não compromete a sua própria carne, já começam a salivar e olhar sedentos para os apetitosos pescoços de seus relapsos donos.

E incapaz é o fazendeiro que gasta o pouco tempo e dinheiro que ainda tem com músicas para boi dormir ou comprando cordas e fortificando as cercas e muros para manter o gado confinado.

Melhor e bem menos dispendioso seria, se encontrasse urgentemente – antes que seja tarde - a fórmula perdida ou esquecida, utilizada pelos grandes fazendeiros do passado no enfrentamento e resolução de problemas.

Melhor seria se antes de diminuir, que fizesse com que o pasto voltasse a ser verde para TODOS. Antes de se servir da pouca água barrenta destinada aos bois, que se investisse de uma coragem, até então desconhecida – e quebrasse sim algumas regras obsoletas e moralmente impraticáveis - e fosse mais [bem mais] justiçoso na distribuição da água potável para todos os animais da fazenda.

Coragem! Mostre sua indignação também! Talvez tenha chegado a hora de além de levantar a voz, brigar também. Evite a luta dos súditos (principalmente entre si)! Lute você, como um fiel e real líder da fazenda, não como uma borboleta!
Everaldo Pavão
Enviado por Everaldo Pavão em 03/12/2019
Reeditado em 03/12/2019
Código do texto: T6809780
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Everaldo Pavão
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil
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Everaldo Pavão