ATÉ NUNCA MAIS

Família é dádiva dos céus. Criaturas atadas pelo amálgama invisível. Untadas pelas especiarias dos anjos. Benzidas pelos suores de Deus. Então vem a vida e bagunça tudo. Faz o chão se assustar. Deixa o gostoso coalhado. Faz ruírem sonhos. Faz feder o bonito. Daí seus elos tentam reverter o caos. Daí seus elos colocam panos quentes nas chagas. Daí seus elos se cegam pra não ver a lástima que ficou. Então a família se refaz plena. Então a família se reescreve em linhas de calmaria. Então a família volta a sorrir. Mas aquele tumor em metástase que se calara, solta um grito. Então aquela história manca, cruel, sacana, revoa. Então aquele passado que se dizia enterrado, reassume seu legado. Um legado encharcado daquela verdade tanta. Daí o passado se apossa do presente. Daí o lindo, o gostoso, o legal, fogem pelo ralo. Daí aquelas lembranças perfumadas, aqueles passos de festa, aquele cheiro de bom, abandonam de vez o barco. Pra dar lugar à ingratidão, ao destempero, ao desprezo na sua majestade absoluta. Daí, adeus família. Até nunca mais.

Oscar Silbiger
Enviado por Oscar Silbiger em 19/12/2019
Reeditado em 19/12/2019
Código do texto: T6822723
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