Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

UM MORTO INCOMÔDO

UM MORTO INCÔMODO



Deu no ESTADÃO (Estado de São Paulo) de hoje: “HOMEM DADO COMO MORTO É DESCOBERTO VIVO JÁ NO NECROTÉRIO”. O jornal noticia que isso aconteceu na UTI do HOSPITAL SÃO LUCAS, em SANTOS. O aposentado ANTÔNIO CASTANHEIRA DINIZ, de 77 anos foi dado como morto e enviado à pedra do necrotério, entretanto, por artes das coisas deste mundo, um funcionário do necrotério percebeu que ele ainda respirava e homem foi levado às pressas aos médicos, que fizeram uma traqueostomia, entubaram o “morto-vivo” e o homem permaneceu no nosso mundo, pelo menos por algum tempo (e talvez até para desgosto dele, afinal essas pessoas que morrem e voltam não podem ser consideradas deste mundinho aqui). O caso provocou, como não poderia deixar de ser, polêmica sendo necessário até divulgação de notas à imprensa. Imagino que foi um dia agitadíssimo no hospital. Comentários de todo tipo: das enfermeiras, por exemplo: “eu sabia, mais dia, menos dia isso ia acontecer”, “mulher, essa não é a primeira vez”; dos porteiros: “ta sabendo?” em tom de surdina e conspiração, uns para os outros; dos médicos, circunspectos: “como é que pode?”; do motorista de táxi a algum parente de paciente, assim como quem sabe de tudo do hospital: “se fosse da minha família, tirava daqui”....Passaria o dia aqui todo à frente do computador descrevendo os possíveis e imagináveis comentários de todos que, de uma forma ou de outra, se envolveram ou tiveram conhecimento do fato. Minha curiosidade é dirigida ao funcionário que descobriu que o homem ainda vivia. Será que se assustou? Estava limpando o chão? Fazia idéia de que isso poderia acontecer? Já tinha acontecido outras vezes? No sertão de pernambucano corre uma estória folclórica de um médico que apreciava muito a saborosa aguardente de cabeça dos velhos engenhos do sertão, bem assim como seu assistente e, num desses dias em que a água de alambique tinha deleitado os dois mais do que o recomendável, foram chamados às pressas para diagnosticarem o que tinha ocorrido com um viajante que, subitamente (de repente, mais que de repente) tinha “batido as botas”. Dificuldades à parte (para largarem a companhia líquida e instigante), meus dois heróis partiram para ver o homem. O médico, anos e anos de clínica no interior, olhou o viajante e, assim meio como quem se referia a um desafeto (afinal tinha lhe retirado daquela doce terapia líquida), disse que o homem estava morto, no que foi secundado por um obsequioso balançar de cabeça do assistente e enfermeiro. Proferido o diagnóstico fatal, volta o médico aos à conversa molhada da bebida e lá ficou o enfermeiro encarregado de levar o corpo ao hospital e cumprir as tarefas sanitárias de estilo. Pois bem, depois algum tempo cuidando desses afazeres, o enfermeiro já estava “doido” para voltar ao encontro do doutor, porém o corpo estendido na pedra se mexe e....o homem dado como morto, levanta o lençol dizendo, com uma voz quase do outro mundo, que está vivo. O enfermeiro, já revoltado com aquele empecilho, fulmina o viajante com seu olhar melado de aguardente, vai ao seu encontro, dá-lhe uma palmada nos peitos e diz, com toda força e raiva que ele podia ter: “quer saber mais que o Doutor? Você está morto”.

Garanhuns, 27 de agosto de 2005
Augusto N. Sampaio Angelim
hildinho@bol.com.br
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 06/10/2007
Reeditado em 15/03/2008
Código do texto: T683745

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Cite o nome do autor e o link para a obra original). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Augusto Sampaio Angelim
São Bento do Una - Pernambuco - Brasil, 56 anos
184 textos (154485 leituras)
1 e-livros (467 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 15/12/17 20:08)
Augusto Sampaio Angelim