Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Passaram-se 48 horas do sequestro que sofri na última quinta-feira e muito aprendi com o ocorrido. Aprendi com o meliante como não ser assaltado novamente, e o mais incrível é que foi ele quem me deu as dicas.


         Gostaria de saber porque chamam  esse tipo de crime de sequestro relâmpago. Pelo que sei,  um relâmpago dura de décimos à poucos segundos. Fique quatro horas com um revólver apontado para você e  faça um cálculo de quantos relâmpagos ocorrem nesses 240 minutos. Milhares deles, muitos milhares!!! Prefiro chamar de Sequestro Atendimento Telefônica: você sabe quando começa, já quando e como terminará você nunca sabe, sem contar que você sempre sai no prejuízo.


         Muitos me ligaram para me dar apoio, outros só para saber detalhes técnicos. Teve gente que desviou o assunto do lado emocional para uma coisa mais racional, e o que eu mais queria era dizer  como me senti naquelas quatro horas e não os detalhes macabros. Minha maior supresa veio de minha mãe: ela me disse que estava muito feliz por eu estar vivo e não ter sofrido nenhuma violência física. Sem dramas nem milongas. Incrível, mas ela foi a que mais me surpreendeu, acho que pela sabedoria que ela adquiriu com tantos anos de vida. Como se diz na Espanha: “Mas sabe el diablo por viejo, que por diablo”, ou seja a sabedoria vem com o tempo, com as experiências. O sábio Joaquim disse: “Pois é Miguel, a vida é longa o bastante para vermos muitas coisas e curta demais para tanta coisa a fazer”.


         Não posso dizer que a unanimidade das pessos perguntou a cor do f.d.p., mas chegou perto dos 100%.

“Miguel, qual era a cor dele?”. Todo mundo achava que ele era de cor!!! Pois é gente, ele era branquinho, quase  nórdico. Será que eu teria tido mais medo da situação se ele fosse afro-descendente? Não posso dizer preto ou negro, afinal segundo o código do “politicamente correto”, não poderia chama-lo das cores acima, mas inventaram um tal de Dia da Consciência Negra!!!! Daí sim pode-se usar a cor negra, para colorir um pouco esse ato tão racista. Só achei bom o dia que escolheram: 20 de novembro, que por pura coincidência é o dia do meu aniversário. Será que só os afro-descendentes tem consciência? Quero também o Dia da Consciência Branca, Amarela, Jambo, Verde de Vergonha, Vermelho de Raiva e por aí afora.

         
         Não reagir foi talvez o ato mais lúcido. Houve um momento em que pensei cravar-lhe a caneta no olho , em outro,  de sair correndo do carro (essa acho que era a pior opção). Pensei várias coisas para me livrar dele, mas com certeza manter a calma foi a que mais me ajudou. Óbvio que se eu sentisse que ele fosse me matar eu reagiria, apesar dele estar muito mais preparado que eu para a contra-carga. Não discutir foi outro ponto importante. Concordar com tudo que ele dizia foi fundamental para manter a tranquilidade. Eu precisava que ele confiasse em mim, que eu não faria nenhuma tolice, tanto que,  quando chegamos perto do local dele descer, ele colocou o revólver por dentro da calça sem o menor constrangimento. Ele sabia que eu não reagiria pois afinal, nesse ponto, já haviam detonado meus cartões de credito e débito.

         
          Uma das coisas mais inusitadas foi o fato de deixa-lo no terminal de ônibus. Isso mesmo, a confiança dele era tão grande de que nada ia acontecer que ele se deu ao luxo de descer em um lugar cheio de gente.

         
        O maior apredizado foi o de que a vida é cheia de surpresas, de pedras em que podemos tropeçar e cair,  de que nada é certo, contínuo, seguro, portanto aproveitar cada momento é antes de tudo um ato de inteligência, de amor a si próprio. Vida estruturada, segura,  só existe na cabeça, na nossa loucura cotidiana,  já no mundo real tudo é possível, tudo mesmo, até mesmo um sequestro relâmpago.  

 

Beijos

 

 

Num gesto de socialização da informação, passo a vocês o que não fazer segundo o próprio assaltante:

·         Jamais deixe o carro em um lugar com pouca iluminação. Faça o possível para que o mesmo esteja sempre iluminado por algo, seja um posto de gasolina, um bar, qualquer luzinha serve, até mesmo a casa da luz vermelha.

·         Se possível, estar sempre acompanhado. Eles preferem não atacar mais que um pessoa, pois o risco é grande

·         Antes de adentrar seu carro, olhe bem se não há ninguém suspeito. Se você desconfiar de algo, não seja estúpido e onipotente, recue.

·         Despedidas longas, busca de estações de rádio, passar batom antes de dirigir são proíbidas.

·         E o mandamento número 1 para sair bem de uma situação assim: NÃO REAJA.

 

JOSÉ MIGUEL DELGADO
Enviado por JOSÉ MIGUEL DELGADO em 06/10/2007
Código do texto: T683768

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (José Miguel Delgado - www.jmdelgado.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
JOSÉ MIGUEL DELGADO
São Caetano do Sul - São Paulo - Brasil, 57 anos
224 textos (35453 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/12/17 21:01)
JOSÉ MIGUEL DELGADO