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Indecifrável

   Ah! O amor! Ele mesmo. Aquele que nos faz suspirar, transpirar, gaguejar. Regozija o coração, deixando-o quentinho e no total conforto. Há gente que acredita no amor sem razões. Drummond é o cara para falar bem disso. Eu já não acredito nessa ausência de motivos, estou mais inclinada ao pensamento de Pascal: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.

   Não se trata da sua falta, mas da sua incapacidade de decifrar aquilo que habita em essência, os verdadeiros princípios. É uma outra espécie de linguagem não acessada por nós. Talvez, jamais consigamos entendê-la, pois é de uma grandiosidade desumana no seu sentido mais perfeito possível.

   E posso confessar uma coisa? Ainda bem que é desse jeito, senão o amor deixaria de existir. A mágica trazida pelo desconhecido é a responsável por nos deixar ser amados e por amar. Por sermos amantes e experimentarmos a paixão, sentimento mais fugaz e dotado de incomensurável valor.

   A alegria construída pelo amor, passo a passo, dia a dia, só se vê consolidada, à medida em que utiliza a ferramenta da ignorância. Alimenta-se da desinformação inconsciente a respeito das causas inerentes à existência. Desse modo, conhece o caminho de casa de cor, sem se perder em meio às diversas possibilidades, ruas, avenidas, moradias. Situa-se bem. Esse é o seu paraíso.

   Outro ponto é o que se ama. Quando eu te amo, estou realmente amando a ti? Hermann Hesse disse que o que amamos é sempre um símbolo. Eu assino embaixo. Por mais que a gente ame a pessoa, não é bem ela o objeto amado. O ser humano enxerga através de espelhos, reflexos. Admiramos o enigma do amor e o contato com ele. Um processo de retroalimentação, feedback do que estamos sendo, procuramos ser e até repudiamos vir a ser na relação com o outro, na troca entre corpos, feelings do toque dos rostos.

   O amado por mim é o espaço limítrofe revelador do outro aspecto que me atrai, que me escapa. Então, a gente se beija, se abraça, se deseja para almejá-lo, apesar de ser impossível. Estamos cegos e bêbados desse amor maior, fugidio. Quando nos pegamos na ilusão de termos alcançado, deixamos o sentimento ir. O que estava aprisionado antes passa a estar preso a outros corações - ou somente ao próprio. Na vida, somos a nossa própria prisão, não é mesmo? O ciclo recomeça e, assim, segue adiante.

   Tudo autossabotagem. Nós, portadores do amor e da paixão, muitas vezes, nos recusamos a perceber que eles só sugerem a obscuridade do desejo concretamente. A pessoa - objeto físico - faz essa vontade ser projetada na imaginação apenas. Isso nos mata internamente! “O amor começa por uma metáfora”, afirma Milan Kundera. Ou seja, é uma ilusão!

   Contudo, não é para ficarmos tristes. Apesar dos pesares, continuamos necessitados do amor. Somos frágeis, fracos, insuficientes. Precisamos do outro sempre, independente da maneira estabelecida para traçar o afeto. Para mim, o que resta é não se perguntar - pior ainda, questionar o outro - por que se ama. É uma ideia insuportável no plano dos indivíduos. Pode-se falar sobre o amor eternamente, mas nunca o porquê de senti-lo.
Mariane Amaral
Enviado por Mariane Amaral em 15/01/2020
Código do texto: T6842149
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Sobre a autora
Mariane Amaral
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil
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Mariane Amaral