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Uma dança

Então seria isso a vida? Um monte de fragmentos?

Com o cuidado de quem recolhe cacos de vidro no chão, peguei no vento esta lembrança doce.

Era uma tarde de sexta-feira como agora. Enquanto me arrumava para a aula, o pensamento estava no dia seguinte.

A lanchonete do Bodão, na Cachoeira da Laje. Ali eu me iniciava nas artes do encantamento, da paquera, do desejo. Nessas coisas eu era atrasado em relação aos amigos, como sempre fui em toda a vida.

Dora, Dorinha. Um beijo te dou – e uma rosa com perfume. Afasto os outros de ti – e termina o meu ciúme. Dora, Dorinha. Agora tudo se aquietou – e tu és só minha.

Estarias lá novamente? Eu desejava e temia. No sábado anterior uma troca de olhares, uma ponta de esperança. Ilusão minha? De nunca saber. A dúvida é o melhor ponteiro para gravar coisas na escultura da memória.

Recordo que, à noite, na aula, ensaiava o que dizer. Nada disso adiantou. Via de regra, eu nunca consegui dizer em ocasiões difíceis o que havia pensado. E tudo se deu guiado pelo acaso, ao ritmo acelerado do meu coração adolescente.

Mas uma música dançamos! Pude até contar aos amigos, orgulhoso, nos dias seguintes. Não sei bem de onde tirei coragem para te convidar. Foram instantes mágicos. Na hora da vida, em que reunimos os minutos mais valiosos, aqueles estão lá, por certo.

Mas foi só isso. Por nada conseguir dizer e nem demonstrar ao final da música, restou teu sorriso e o até mais. Só pude exclamar um inocente e infantil "Obrigado!" que durante anos odiei, mas do qual hoje me orgulho com certa doçura. Era o melhor de mim.

No sábado seguinte nada daquilo teve seguimento. Eu não fora mais do que isso: três ou quatro minutos que se perderam no correr de tua vida.

Esse descompasso entre o que, em dado momento, é importante a uma pessoa e a outra não, mesmo quando as duas viveram a mesma cena, é para mim uma das coisas mais misteriosas da existência.

Vida.

Sim! Uma coleção de fragmentos.




José Carlos Freire
Enviado por José Carlos Freire em 14/02/2020
Reeditado em 14/02/2020
Código do texto: T6866205
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Carlos Freire
Teófilo Otoni - Minas Gerais - Brasil
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José Carlos Freire