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          Para uma criança desconhecida

        Enquanto esperava para ser atendido pelo meu dentista, abri uma Caras
       A Caras é uma revista à qual a gente pode recorrer para suportar a insana maçada de que, vez em quando, somos vítimas, nos consultórios médicos e odontológicos. 

        Entre as mulheres mostradas na revista,  descobri, para minha surpresa,  a velhusca Brigitte Anne-Marie Bardot. Com 73 anos de idade, feia, enrugada, ela não tinha nada da belíssima Brigitte Bardot dos filmes de antanho.        
        Oh! O que o tempo faz com a gente!!!!!

        Por isso, não me canso de agradecer a Deus por ter nascido feio.  E continuo feio.
        E faço esta revelação sem medo de ser repreendido por minha mãe. Ela  morreu, acreditem, dizendo que eu, seu filho mais velho, à época de sua morte um sessentão, era "a criança mais bonita" do planeta! 
        Excessiva generosidade de uma genitora coruja.

        De tanto ela repetir que eu era "bonitão", num determinado momento quis acreditar que ela tinha razão. Mas ao me encontrar com os espelhos, concluía, que só aos olhos dela eu aparecia como um menino charmoso.

        Ela, sim, era uma mulher charmosa. E charmosa, viajou para o outro mundo, disseram-me os parentes ao seu enterro...

         Disseram-me os parentes? Em  crônicas que escrevi falando de defuntos - inclusive dos mais queridos -, confessei que prefiro não vê-los, na hora do adeus definitivo. 
        Nunca quis ter dos meus mortos suas imagens amortalhadas. Sempre achei melhor continuar a vê-los como se estivessem ao meu lado batendo um papo legal. 

        Não entenderia, por exemplo, ver minha mãe estirada num caixão estreito,  inerte, muda, esquálida, de olhos cerrados; ainda que mergulhada em perfumadas rosas e flores silvestres. Faltaram açucenas, flor campestre que ela adorava.

        Não suportaria vê-la com as mão presas ao peito sem poder  abraçar-me, calorosamente; como fazia  todos os dias, e, em especial, no Dia da Criança. Pois, nunca deixei de ser para ela uma criança embora de cabelos grisalhos. 
       Daí os constantes conselhos; e os cuidados permanentes, até quando me via atravessando a rua, ostentando a envergadura altaneira dos meus sessenta anos.
        De longe eu a espiava com admiração. Certo de que para ela eu continuava dando os primeiros passos,  mesmo depois de me soltar da sua mão amiga e protetora. 

                       ***   ***   ***

        O Dia da Criança é o dia dos filhos: dos filhos de pais separados; de pais quase separados; de pais amancebados; de pais solteiros; de pais "clandestinos", desaparecidos, envergonhados; e, finalmente, dos filhos de pais bem casados.  Pouco importa.

        É também o dia das crianças de rua;  das crianças esfarrapadas das sinaleiras; das crianças cheirando cola nas esquinas da cidade; das criancinhas das creches; dos meninos da FEBEM, maltratados, esquecidos, sem futuro.

        Crianças sem uma mãe como a minha, que, mesmo  desmentida pela voracidade do tempo, insistia em me fazer, num ato de extrema bondade, "uma criança bonita"; sem dar bolas, como disse, pros meus cabelos grisalhos... 

        É para a criança desconhecida que perambula, noite e dia, pelas ruas e praças de Salvador, que escrevo esta crônica.
        Para aquela criança que, no seu dia,  não receberá presentes, e muito menos carinho.
        Das outras, a sorte cuidou de bafejá-las. E não apenas no Dia da Criança, mas em todos os momentos de suas vidas...

               
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 11/10/2007
Reeditado em 12/02/2008
Código do texto: T690733
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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