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Coronavírus


     Um silêncio terrível envolve o mundo. As janelas estão fechadas, as cortinas cerradas, as portas trancadas. Um ser invisível nos persegue. Mesmo parecendo ser incoerente, posso afirmar que esse silêncio tem voz e vem acrescido de um burburinho confuso, consequência de informações desencontradas.
     Todos em quarentena, motivada pela pandemia do coronavírus, trazem no peito o desejo incontido de conversar, amortecer o sentimento de incerteza, voltar a ser simplesmente humano e poder defender-se desse inimigo invisível.
     Cumpro essa quarentena compulsória, ou melhor, confinamento social, tentando levar uma vida normal, como se isso fosse possível. Passo as horas dominando um controle remoto de televisão. Claro que recorri à leitura dos livros da estante e todos foram devorados. Notícias e comunicações pelo Whast App já cansaram. Minhas ações são facilmente presumíveis para sair do torpor do isolamento.
     Acho que estar em casa nos dá uma certa esperança de que nada de ruim irá nos acontecer. Chegar até a janela, debruçar sobre o parapeito e olhar em volta virou rotina, mesmo assim, à beira da janela com a vista muito vasta, me sinto como se um muro altíssimo cresceu diante de mim.
     O jornal que chega pela manhã, que recolho por baixo da porta. Vão se acumulando. Ainda ontem tentei ler, sem muito sucesso, pois as linhas misturam-se, quase indecifráveis, diante de tantas notícias fatídicas. Mesmo assim insisti. Entre tantas notas referentes ao vilão social, deparo com a nova Portaria das autoridades vigentes para o combate à pandemia do o inimigo invisível, que finalmente, possui um nome – covid - 19.
     Forcei a leitura. Seria autorizado o uso da força policial para obrigar pessoas suspeitas de contaminação a ficarem em isolamento, em quarentena. De fato, nos primeiros dias houve um relaxamento na vigilância ostensiva por parte da população, o que de certa forma reforçava vitória a favor do vírus.
     La estava a determinação bem clara e objetiva: “A autoridade policial, acompanhada de agentes de vigilância epidemiológica e profissionais da saúde de modo geral, poderá encaminhar o suspeito de contaminação a um hospital ou estabelecimento prisional em cela isolada dos demais”.
     O que passou a ser modelo de eficiência por parte das autoridades vigentes, agora contaminados pelo vírus do triunfalismo num espetáculo dantesco. Mas por outro lado, provocou verdadeiro protesto do meio jurídico que deu alerta quanto a brutalidade estatal do isolamento e poderes de exceção por prazo indefinido e manipulação política da crise sanitária.
     -“Não saia de casa! Ou te colocam na cadeia”. Passaram a sonhar os simpatizantes dos políticos que em seus desvairados delírios arbitrários, sonham mais: drones filmando casais que passeiam com cachorro.
     Em minha rotina de olhar da janela, tentando decifrar o que se passa ao meu redor, passei a observar a casa simples tão próxima, aliás em frente ao meu prédio. Pelo pouco que sei do seu morador, me foi informado pelo nosso porteiro – estes sempre bem informados! Trata-se de um senhor de idade já bem adiantada, aposentado há anos, tendo sua esposa já falecida há algum tempo, o que por certo faz com que ele passe suas horas dormindo.
     Nos últimos dias, tenho observado que o funcionário da companhia de energia que vem fazer a leitura do relógio, tocar a campainha sem obter êxito.  O único prontamente atendido é o entregador da farmácia que toca a campainha sempre ao meio dia. Tais costume deve ter despertado suspeitas nos fiscais do controle sanitário da pandemia, isso é, por certo já haviam denunciado como potencial contaminado do perigoso vírus.
     Nesta manhã acordei com os gritos lá fora, o burburinho se instalou lá embaixo. Me aproximei da janela e ainda tive oportunidade de presencia a prisão do indefeso vizinho.
     Ele foi agarrado pelos braços e puxado pelos policiais, enquanto aguardavam o enfermeiro que prontamente o envolveu em uma camisa de força.
     Teria ele simplesmente se revoltado diante do absurdo de ser frágil e perecível diante de um inimigo que não conseguia dominar? Ninguém ousaria questionar.
    Seria a batalha final entre humanos e desumanos, a não ser que o coronavírus   destrua a ambos, ou seja, todos nós.
     Debruçado na janela, fico pensando e os pensamentos se embaralham na cabeça que desiste de pensar na vida. Então, só resta agora nos contentarmos em olhar as estrelas.

Laerte Creder Lopes
Enviado por Laerte Creder Lopes em 19/04/2020
Reeditado em 19/04/2020
Código do texto: T6922378
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Sobre o autor
Laerte Creder Lopes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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