Mais humanidade por favor

     Ainda estamos na quaresma. Sem aprofundar em religião, não tenho cumprido com eficácia, embora admire quem pratica o jejum e a oração.
     Acordo cedo, fico na cama por conta do frio e do silêncio inédito. Depois de uma hora, levanto e vou para a cozinha fazer café. Enquanto ferve a água, olho de minha janela ao longe a avenida mais movimentada da cidade: agora solitária e quieta, aliás, toda a cidade num silêncio absoluto.
     Estão chamando de quarentena tal isolamento social. "#FiqueEmCasa" é o lema de tal campanha. Mas em breve sairei para fazer minha caminhada.
     Minha esposa levanta com nossa filha no colo, tomamos café, debatemos a cidade silente e, por um instante, discutimos algo em meio à preocupação de minha saída de casa. A tevê só fala da COVID-19.
     Pego meus fones de ouvido e saio às 8h30. Ouvindo "Resurrection" da "Fear Factory", sigo a pé pela rua deserta e enceno com olhares a cidade, o céu azul sem nuvens, o vento, as árvores, a montanha, as raras pessoas e poucos carros, praticamente ninguém nas ruas.
     Caminhando na avenida menor como de costume, cumprimento de longe o rapaz que trabalha sozinho com blocos e manilhas de concreto. Ali em frente tem uma fábrica de fertilizantes com o portão cerrado e um aviso de resguardo, anotados os celulares dos dez funcionários para contato. Noutras ocasiões, os via presencialmente.
     O comércio está parado, quase todos os estabelecimentos fechados. Ainda na primeira volta, observo e não encontro os pedreiros de uma obra em andamento. Mais adiante, vejo o José conversando na rua com dois possíveis clientes, a uma distância aceitável (o recomendado são dois metros).
     Na segunda volta, vejo poucas pessoas de máscaras transitando de um lado pro outro, individualmente. A maioria idosos. Um deles usa aquelas máscaras compridas de industriário manuseador de material radioativo, e outro, no quintal de casa, me observa desconfiado.
     A terceira e última volta prevê meu espanto ao deparar com uma grama redonda – antes nunca vista – nascida em meio à sarjeta, com o José mais perto dos clientes e com cabeças adultas espionando meu isolamento na avenida, enquanto na solidão escuto "Cars" da banda supracitada. Despeço-me do rapaz dos blocos e manilhas, nós dois abismados com a atual situação do Brasil perante à pandemia do novo coronavírus.
     Chego em casa. A recomendação é cumprida: abandonar as roupas na garagem e nu, com a troca de chinelos deixados na porta de entrada, partir para o banheiro tomar banho.
     Durante o banho, sou tomado por uma reflexão: isso que está acontecendo é motivo para as pessoas repensarem sobre a arrogância, a falta de humildade e de empatia, num Brasil onde as empresas estão fechando e os funcionários estão com medo de perder seus empregos; onde os empreendedores estão sem chão em seus negócios; onde muitas famílias, por causa do dinheiro, estão desunidas etc. Neste momento de silêncio, isolamento e reflexão, faz-se necessário o respeito, a fé, o bom senso e a solidariedade, em busca da superação desta crise e da aniquilação de tal doença.
     Portanto, fique em casa e renove sua vida espiritual.

     Ipuiuna, março, 2020.
Adriano Vox
Enviado por Adriano Vox em 29/04/2020
Reeditado em 12/05/2020
Código do texto: T6932430
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