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A Flor de Outono

      Oitavo dia de quarentena. Sem sintomas. Fiz uma pausa na leitura e fui até a cozinha para preparar mais um café. Era uma linda manhã de outono. No céu, o sol brilhava em meio às poucas nuvens. Na rua, o silêncio falava mais alto que todos os hábitos cotidianos, que por ora eram minimizados por conta de uma força maior.
      Sendo eu um homem antissocial, ficar confinado em casa não estava sendo lá tão difícil. Tirando o trabalho, as caminhadas semanais e os raros encontros casuais, minha vida não tinha mudado muito. Apenas a incerteza sobre o futuro me tirava um pouco o sossego, mas fora isso tudo bem. Terminei de tomar o café, lavei as mãos e, mesmo que talvez não fosse necessário no momento, fiz questão de higienizá-las mais uma vez com álcool gel, pois aquilo já se tornara um bom hábito.
      Quando eu estava prestes a retornar para o romance, olhei pela janela e algo muito interessante me chamou a atenção: naquele momento, a vizinha que morava na casa da esquina passeava no meu jardim, feito uma exclusiva flor de raríssima beleza. Ela era uma mulher encantadora. Devia ter uns trinta anos, mas carregava em seu semblante a ávida curiosidade de uma adolescência não findada. Raramente eu a via sozinha. Mas naquele dia, devido às circunstâncias, a belíssima dama estava bem ali, desfilando em meus domínios. Provavelmente, tomada pelo tédio, resolvera sair um pouco. Ignorara as recomendações médicas em busca de uma simples distração.
      Ao ver a rua deserta, saí de casa e fui até o jardim. A adorável mulher ficou um pouco encabulada com a minha repentina presença.
      — Desculpa, acho que invadi o seu quintal.
      — Por favor, fique à vontade. É um prazer te ver aqui.
      — Obrigada… Aqui é tão lindo. E olha que nem estamos na primavera.
      — Você gosta de flores?
      Ela ficou pensativa, meio que tentando encontrar a resposta mais apropriada.
      — Pra falar a verdade, nunca reparei muito nelas. Mas agora, com todo esse tempo disponível, acho que estou aprendendo a gostar.
      — Eu entendo. O lado bom disso tudo é que a gente tem mais tempo pra conhecer e apreciar novas coisas, você não acha?
      — É, acho que sim.
      Ela sorriu. Fiquei encantado com aquele sorriso tão meigo e ao mesmo tempo sensual. Naquele momento, todos os cuidados e todos os possíveis perigos foram esquecidos. Uma epidemia de sentimentos nobres contagiou o meu corpo.
      — Realmente, você tá de parabéns pelo trabalho que fez aqui.
      — Obrigado, mas acho que a natureza merece os maiores créditos.
      — Pode ser…
      Ela continuou a caminhar pelo jardim, observando os canteiros e os arbustos. Meu coração disparou, mas o meu vocabulário travou, ficou iletrado diante daquela visão. Eu sabia que, se o silêncio prevalecesse, ela logo bateria asas dali.
      — Eu já vou indo, acho que não devemos ficar muito tempo fora de casa.
      — Não! Fica mais um pouco?!
      Em uma atitude impulsiva que revelou toda a minha carência, peguei no braço dela e a puxei contra o meu corpo. Ela franziu a testa, parecendo estranhar o meu comportamento. Fiquei muito constrangido.
      — Perdão! Eu não… não quis… — eu disse, largando o braço dela e me afastando.
      Para a minha agradável surpresa, e também alívio, ela sorriu mais uma vez e pegou em minhas mãos.
      — Você é tímido, né?
      — Sou. Bastante.
      — A gente já se encontrou tantas vezes aqui na rua e você nunca falou comigo, nem ao menos disse um bom dia.
      — Me desculpa, é o meu jeito.
      — Não precisa se desculpar, bobinho.
      Eu olhava nos olhos dela. E ela me olhava com ternura. Faltavam palavras, mas sobravam intenções positivas de ambas as partes. Um clima de romance pairava no ar. Então pensei em convidá-la para entrar. Um café seria muito bem-vindo. Ou quem sabe um chá… Bom, o convite estava pronto, dependia apenas da tímida coragem das minhas pregas vocais para ser verbalizado.
      Quando finalmente me decidi a falar, mais uma maravilha da natureza chamou a atenção daquela musa.
      — Ai, meu Deus, que coisa linda! — disse ela, dirigindo-se até uma roseira.
      — São as minhas favoritas — eu disse.
      — Posso? — perguntou ela, tocando em uma rosa.
      — É claro.
      Ela arrancou a rosa e a cheirou.
      — Hum… que delícia. Sente só.
      Ela levou a flor até o meu nariz. Eu a cheirei e… Atchim!!!
      A mulher, apavorada, saiu correndo.

                                      ***

      Nono dia de quarentena. Febre, palpitações e falta de ar. Passei o dia todo na janela.
Renato A
Enviado por Renato A em 04/05/2020
Reeditado em 08/05/2020
Código do texto: T6937185
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Renato A
Guapiaçu - São Paulo - Brasil, 35 anos
117 textos (6837 leituras)
5 e-livros (554 leituras)
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Renato A