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Domingo das mães em isolamento

Domingo é teu dia, mãe. É um privilégio chegar na minha idade indo na casa da mãe tomar um café-com-leite e pão com ovo frito feito por ti, assim como era naqueles tempo idos lá na Colônia - lá no séulo passado! -, quando o pequeno Joãozinho - o teu Dondinho - corria descalço pelas ruas de chão batido da vila. Mãe, nunca passei um dia das mães longe de ti, nunca, tu o sabes, sempre dei um jeito de estar contigo, mas esse ano não vai dar.

Muito arriscado, mãe. Tá muito perigosa a coisa. Prefiro tu em segurança, aí com o pai, do que filho circulando pela casa, vindo da rua. Imagina? Prefiro nem imaginar! Isolamentos social e vertical, no caso de vocês. Pra que existem telefone e vídeo, não é mesmo? Não é a mesma coisa, sei, mas quando tudo isso passar o fogão, o leite, os ovos, o pão, a frigideira, o azeite e nós dois estaremos vivos para retomarmos a normalidade, ou melhor, a normalidade que virá depois dessa "anormalidade transitória" na qual vivemos após 15 de março aqui no Brasil. Como será a nova normalidade? Não sei, esperemos pra ver, né, mãe? As pessoas se sentem culpadas ou vítimas de coisas que são, na verdade, muito maiores que elas. Sabemos que é assim, né. Estamos por aqui e isso aconteceu, apenas isso. Passamos por algo que nunca havíamos passado, fazendo o nosso melhor. Parece às vezes que dançamos à beira de um precipício, mas a decisão de saltar cabe somente a cada um. Viver é sobreviver, correndo riscos calculados. Cada caso é um caso e cada um sabe dos seus riscos. Nós sabemos dos nossos. Por falar nisso, estás tomando certinho os remédios para o coração?

Mãe, nem presente vais ter, viu. Sei que nunca fiquei sem receber um presente de Natal, Dia da Criança ou aniversário. Sei. Entretanto, esse ano tu já ficou sem ovinhos de chocolate dietéticos na Páscoa e vais ficar sem presente no Dia das Mães e eu no aniversário e no Dia dos Pais. Tu já recebeu de aniversário, estás levando vantagem sobre mim, eh eh eh eh. No Natal a gente resolve isso. Acho inoportuno comprar presente nessa situação de risco e anormalidade. Sei que tu vais entender, pois sempre entendeu o meu jeito zeoloso e precavido em momentos como esse. Aliás, sempre me entendeu e compreendeu, melhor até do que eu mesmo. Somos pessoas práticas. E faço isso por amor. "Quando a gente ama é claro que  gente cuida", e cuida-se para cuidar.

Então tá, mãe, sem mais delongas que sei que tu não é de jogar conversa fora. Tá dado o recado. Domingo te ligo, mando um vídeo e aquelas coisas todas que dá para fazer com um celular nos dias de hoje.  Saudade, velhinha que eu amo. Abraço.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 08/05/2020
Reeditado em 08/05/2020
Código do texto: T6941195
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
Charqueadas - Rio Grande do Sul - Brasil, 52 anos
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83 áudios (14074 audições)
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João Adolfo Guerreiro

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