Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

QUASE FERIADO

Sempre entendi o Dia dos Professores como algo perfeitamente aceitável no calendário de aulas. Uma folga justa dentro de um mês que costumamos caracterizar como o mês da outubrite, uma espécie de doença ocupacional semelhante à do cachorro louco bem pouco estudada pelos profissionais da saúde do trabalho.  Não digo que a baba comece a escorrer porque a saliva é facilmente absorvida pelo pó de giz, mas o cansaço e o desgaste aparecem na voz rouca, nas lentas explicações, no peso descomunal que passam a ter os livros que carregamos de cima para baixo e na  intolerância com o barulho. Só pra citar alguns sintomas.

Acontece que hoje me dei conta de que não existe qualquer outra profissão que deixe de trabalhar no seu dia. E isso me pareceu um privilégio (justo como já demonstrei anteriormente) . A experiência de não trabalhar num dia em que todos os outros trabalham é muito enriquecedora e era mais sobre isso do que propriamente de professores que queria falar. Talvez porque  hoje em particular encontrei,por sei lá que espécie de coincidência uma série de pessoas que não encontrava há tempos.

Começou com o Edson. Um colega de escola que reencontrei na faculdade e que , como eu, seguiu os rumos da educação e hoje pela manhã caminhava no parque. É professor da rede privada e por coincidência dentro da coincidência trabalha junto com uma ex-vizinha muito amiga minha. Fiquei bem surpresa com o fato, mas não teria dado tanto importância se , na mesma manhã, ao levar as cortinas da sala para a lavanderia  não me detivesse numa longa e tranqüila conversa com  a Cecília.

Cecília trabalha na lavanderia e é o tipo de pessoa dotada de uma tranqüilidade de fazer inveja. Mesmo eu não sendo freguesa assídua ela me trata pelo nome e do seu modesto trabalho de anotar pedidos consegue fazer muito mais que isso. Trava longas conversas inteligentes. Hoje falamos sobre saúde e doença. Assunto corriqueiro para quem não tem o que conversar, mas acho que pude ajudá-la com algumas dicas. Gostei dessa nossa conversa. Coisa sem pressa.

Na volta  encontro a Margarida. Uma ex-vizinha que depois de toda luta para terminarmos a obra de nosso prédio da construtora Encol ( alguém lembra desta história?) morou pouquíssimo tempo em seu tão batalhado apartamento. Por circunstâncias da vida precisou se mudar e soube hoje que está no Mato Grosso. Bem longe daqui, mas com a vida organizada e feliz. Foi mais um encontro agradável

Vi muitas outras pessoas. O dia estava mesmo favorável a isso . É claro que nem com todas conversei, mas pude sentir o gosto de fazer as coisas com calma e de me sentir num feriado sem a cara e os vícios dos feriados. Um dia comum desfrutado com tranqüilidade. Foi um grande presente e um grande aprendizado. Senti como é bom manter vínculos por mais frágeis que sejam e como é bom poder conversar com as mais diversas pessoas. Um dia a que posso chamar de um quase feriado e que gostaria de repetir mais vezes.

Maria Alice Zocchio
Enviado por Maria Alice Zocchio em 15/10/2007
Código do texto: T695497
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Cite o nome do autor). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Maria Alice Zocchio
São Paulo - São Paulo - Brasil
101 textos (18619 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 14/12/17 11:26)
Maria Alice Zocchio