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ERA UMA VEZ

                                 Fazia frio naquela manhã de setembro. O vento soprava forte como se anunciasse o fim do inverno e a chegada da primavera. Segurando o boné de caminhada, entrei na lanchonete procurando por um café bem quente. Aí chegou um amigo que não via há anos. Tínhamos estudado juntos na década de sessenta. Depois, ele partira para a cidade grande em busca de novos horizontes. Cumprimentamos-nos e fiz o convite para a tradicional bebida. Alguns minutos de silêncio e as xícaras fumegantes chegaram. Enquanto eu colocava o açúcar, meu amigo ficou olhando para a fumaça como se quisesse ver alguma coisa muito além.
Sem levantar o rosto, contou que fazia uma visita depois de anos ausente. Olhou-me bem fundo e perguntou se ainda lembrava dos tempos do curso de contabilidade, em 1964. Segurando a xícara, confirmei balançando a cabeça. Ele quis saber, então, se recordava de uma colega sempre alegre, magra, cabelos curtos, com um charmoso óculos estilo gatinho, muito comum naqueles idos. Como esquecê-la se convivemos três anos, em plena juventude? Era, além de tudo, expansiva, dançava muito bem, gostava de carnaval e natação. Era elegante, mesmo no velho uniforme composto por saia cinza e blusa branca.
Eu já havia terminado o café, mas o dele esfriava lentamente, como se isso pouco importasse. Seu olhar triste denotava um grande problema interior, como se estivesse voltando a um passado doloroso. Colocou a mão no meu ombro e convidou para sentar. Contou, então, que gostara muito dela na época. Falei que todos nós, colegas, desconfiávamos disso, mas ninguém tinha certeza. O parceiro foi mais longe. Observou o outro lado da rua como se imaginasse aquela jovem há trinta anos atrás. Pude perceber que ele jamais a esquecera!
Virou-se para mim dizendo que uma vez, por obra do acaso, a encontrara numa sessão vesperal, em 1966. Sentaram-se lado a lado na sala escura, quase vazia. Enquanto viam a noviça rebelde cantando através das montanhas, trocaram algumas idéias e, num determinado momento, ela o brindou com um beijo desses que só uma mulher sabe dar, quando realmente quer. Disse que ela segurou o seu queixo de forma carinhoso e romântica e que foi o melhor beijo de toda a sua existência, garantindo que jamais o esquecerá! Recordou, naquela fria manhã de setembro, que aproveitou para declarar o seu amor e que ela, de forma muito sutil, informou que ele não a merecia por causa de um segredo muito grande.
Tomou o café mesmo frio, fechou bem o agasalho como se voltasse à realidade. Relembrou que naquele 1966 terminamos o curso e ela praticamente desapareceu. Em 1968, a jovem casou-se numa cerimônia simples, na Matriz, num sábado à tarde. Seus olhos brilharam nesse momento. Tentou abrir um sorriso. Falou que ela estava linda de branco ao sair da igreja. Notou-o num canto, lá no fundo, discreto e o brindou com um pequeno sorriso, espécie de despedida. “- Foi a última vez que a vi.”.
Despedimos-nos com um talvez um dia, quem sabe e cada um seguiu um caminho. Fiquei pensando na história do meu amigo. Cheguei à conclusão de que esta vida é como um conto de fadas. Sempre se pode dizer “era uma vez...”
PPreto
Enviado por PPreto em 17/10/2007
Código do texto: T698078

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Sobre o autor
PPreto
Jaú - São Paulo - Brasil, 74 anos
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