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"BONECA DE PANO"

BONECA DE PANO


O apelido surgiu ainda na escola quando a turma travava conhecimento com Monteiro Lobato e seus personagens.
Pobre Emília, aluna do terceiro ano, quando saía da sala de aula, começou seu suplício:

             -- BONECA DE PANO !!!...

Era o colega mais moleque e levado da escola que adorava azucrinar a pobre Emília, alvo predileto das brincadeiras de mau gosto.
Ela não se intimidava, era corajosa, destemida e saía a correr, aos berros em perseguição ao atrevido, mas o apelido pegou como cola grudenta que não se solta unida ao dedo, tatuagem irreversível.
Não desse tanta importância à alcunha, talvez fosse esquecida e o moleque desistisse de a importunar, mas a reação o deixava feliz e às gargalhadas...

            - BONECA DE PANO !!!...

          Não sei a razão da escolha, a não ser pela magreza. Emília não tinha qualquer aparência física com a boneca de pano: era loira, cabelos desbotados, branquela, muito magra, pernas compridas e totalmente sem graça.

De comum com a boneca recheada de pano, nossa amiga herdara todas as outras prerrogativas inerentes a ela: a tendência para o questionamento, rebeldia à repressão na escola ou em casa, atrevida, falante, desafiadora e sempre dona da verdade.

Dotada de grande energia, é empolgada, entusiasmada, curiosa, quer saber de tudo, a todos corrige, dita regras e exige todos a seus pés.

Comanda as brincadeiras e todos a acatam... menos aquele moleque que ainda vai pagar bem caro pelo seu atrevimento...( ah! se vai...)   Não leva desaforo prá casa e não descansa enquanto não se vinga das ofensas.

Dita as leis do jogo nas brincadeiras, não aceita sugestões ou qualquer opinião que contrarie seus interesses e é ganhadora em todas as disputas, vencedora em todas as competições, a MAIOR!!! ... em qualquer situação.

Encontrei-a por acaso na interminável fila de um banco, e surpreendi-me ao reconhecê-la obediente a aguardar sua vez de chegar ao caixa eletrônico. Ao ver-me, esboçou um sorriso aberto e passou a mostrar sua inconformidade com as atitudes passivas dos integrantes da fila, atitudes que ela não aceita passivamente: conhece as leis e direitos, mas quer sempre transgredir e mudá-los numa atitude desafiadora e atrevida, lutando contra as convenções a que temos de nos sujeitar pra vivermos bem em civilização. Falava alto, gesticulava buscando meu apoio e eu que já conhecia seus gestos e atitudes inflamadas , ia me encolhendo, fugindo daquela reação intempestiva que já me constrangia... Chegamos finalmente ao caixa...
Ai que vontade de gritar como aquele moleque que a azucrinava na escola, aliviando minha tensão:

       BONECA DE PANO!!!...






Linandre
Enviado por Linandre em 20/10/2007
Código do texto: T702222
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Sobre a autora
Linandre
Itabira - Minas Gerais - Brasil
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