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'MANHÃ DE SOL"

   

                             

    ...  e a manhã surgiu com promessa de coisas alegres.

     Aquela bonequinha nórdica sorria e brincava na areia do parque indiferente a toda mágoa do mundo.  A ela o que importa a guerra no Iraque, os conflitos no mundo, os homens se odiando, se a areia está quentinha e aquece o coração daqueles que, de coração vazio e alma enregelada, vão ao parque municipal à cata, quem sabe, de mais calor humano?  Faces rosadas, traz ela preso ao pescoço um aventalzinho felpudo com a legenda “BABY”, porém usado pelo avesso, transformando o Baby em Ybab.  O que lhe importa que Baby seja Ybab, se a grama verdinha é acolhedora e o baldinho de areia adoça sua chupeta como açúcar?

     No balanço o garoto moreno se agita sozinho, prá lá – prá cá, pra - lá prá cá, sob aquele rangir ritmado que nos conforta, vendo-o feliz na ciranda rítmo, das borboletas multicoloridas, do eco dos   passarinhos... O ranger dos aviões no céu lá de longe não perturba seu rítmo prá lá – prá cá – prá lá  - prá  cá...   Amanhã, quando for grande, talvez se lembre de que, no balanço da vida as injustiças geram guerras, as guerras geram mortes, as mortes geram o caos.  Hoje, na manhã de sol o céu  é tão azul, a paz é tão sublime, prá que pensar em guerra?

          Outra criancinha na graça dos seus 3 anos tenta alcançar, aos pulinhos, as argolas da corrente de ferro em que pretende gangorrar.  Sua sáia rodada se agita ao rítmo dos pulos, deixando à mostra as perninhas roliças e rosadas, como se toda sua vida ali se concentrasse, no mais delicado passo de balé.   Ao lado dois vigilantes da PM passam alheios, indiferentes à beleza daquela bailarina em potencial que, em passinhos curtos e ao rítmo da brisa que farfalha no  arvoredo, dança a sua mais bela coreografia.
A presença dos vigilantes da PM é prudente, mas não poderia ser mais discreta, menos ostensiva naquele recanto mais lindo, mais verde e mais colorido? Querem quebrar com botas e fardas, o encantamento e a magia daqueles caracóis negros que se agitam no esforço de alcançar aquelas argolas que, no momento, a levam ao paraíso da felicidade?  Mais tarde as argolas da vida, de aros entrelaçados ficarão cada vez mais distantes, mais inacessíveis, mas agora são argolas de sonho azul entrelaçadas de dourado... Não desfaçam o sonho, senhores PM.

            Um velho é um velho, o tempo que passou obstruindo coronárias, embranquecendo cabelos, alquebrando corpo e alma.  Mas um velho no parque aquecendo-se ao gostoso e acolhedor sol  do fim de outono, com a alma revificada pelo calor da infância feliz que brinca e se agita, que corre e sorri, que derrama na grama verde a alegria incontida, é um espetáculo de renovação, de reencontro, de brilho no olhar, de renascimento, de paz...
Linandre
Enviado por Linandre em 22/10/2007
Código do texto: T704550
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Sobre a autora
Linandre
Itabira - Minas Gerais - Brasil
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