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A Médica e a Manga.

Eles se conheceram na porta de um hospital. Ele, acabara de ser deixado por um desconhecido, com o pescoço inchada, quase sem poder respirar, bêbado de tudo. Ela, atrasada para mais um interminável plantão naquele hospital público.

Pedro já não conseguia formar uma frase. Mesmo assim, tentou e percebeu que não conseguia sequer pronunciar uma palavra inteira. Conseguiu apenas emitir um som estranho com a boca. O suficiente para Tatiana escutar e olhar para baixo. Ele estava caído, entre o poste e a sarjeta, bem em frente ao hospital. Ela se abaixou, tentou acalmar o rapaz, percebeu que asituação era grave e gritou por um enfermeiro.

Demorou 3 dias para ele acordar, já internado. E mais 3 para descobrirem quem era o sujeito, que estava sem nenhum documento – e também nenhum dinheiro – na carteira. Tatiana, que havia se formado há 1 ano e ainda tinha o juramento muito vivo em sua cabeça visitava o rapaz diariamente.

Finalmente seu pescoço desinchou e Pedro conseguiu conversar. Disse não saber o que havia acontecido, muito menos o que havia ingerido. Só sabia que tinha comido um pedaço de manga. Não que ele se lembrasse, mas sim porque ainda tinha um fiapo da fruta no meio dos dentes. Os médicos não tinham a menor idéia do que poderia ter deixado um pescoço naquele estado lastimável. Pedro, definitivamente, era um caso a ser estudado.

Depois de 10 dias no hospital, finalmente Pedro recebeu alta. Foi embora sem se despedir de Tatiana, sua companhia diária. Quando ela soube, ficou inconsolável. Ela não teve dúvidas. Foi até o arquivo e descobriu tudo sobre Pedro. Estava decidida a visitá-lo em casa e pedir explicações do porque ele ter ido embora sem se despedir.

Tatiana se lembrou daquele fiapo nos dentes dele e resolveu fazer uma surpresa. Passou em uma frutaria e comprou uma bela manga para Pedro. Chegando em sua casa, ela deu um longo abraço nele. Bem apertado, daqueles de urso. Como tinha levado a fruta descascada, os dois imediatamente começaram a se lambuzar com aqueles lindos pedaços de manga.

Em menos de 2 minutos, o pescoço de Pedro estava inchado novamente. Ele começou a perder a fala e a respiração. Seu rosto já estava ficando roxo, quando ela, nervosa com aquela cena agonizante correu até a cozinha para pegar uma faca ou uma caneta e tentar uma traqueostomia de emergência.

Quando Tatiana voltou à sala, Pedro já estava morto. Ela não poderia fazer mais nada. Tatiana sentou no chão e começou a chorar olhando para o infinito. Mas no outro canto da sala, um copo vazio desafiava a moça e tentava explicar o ocorrido. Desta vez, antes da manga, Pedro havia bebido um belo copo de leite.
Ricardo Polinesio
Enviado por Ricardo Polinesio em 22/10/2007
Código do texto: T704726

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Sobre o autor
Ricardo Polinesio
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Ricardo Polinesio