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CALMO SETEMBRO

             Corria o ano de 1968. O mundo experimentava profundas transformações enquanto o Brasil vivia uma época de grande agitação política. Naquele tempo eu escrevia crônicas diárias para a Rádio Piratininga.  A grande maioria, evidentemente, foi para o lixo. Mas outras ficaram no fundo de uma gaveta até outro dia, quando revolvi a poeira e encontrei antigas lembranças. Assim, com a devida licença dos meus leitores habituais, gostaria de reproduzir um texto daquela época, um tanto ingênuo, é verdade. Afinal, eu tinha pouco mais de vinte anos, era romântico e desligado dos problemas do mundo, como a grande maioria do pessoal da minha geração, que vivia aqui, neste interior sempre tranqüilo.  Espero que pelo menos os saudosistas apreciem.
Rasguei a folhinha e li, com prazer, as letras grandes que anunciavam a chegada do mês de setembro. Sorri sem saber por que, enquanto um frio diferente corria pela espinha numa ânsia indefinida de sensações esquecidas. Um nó apertou a garganta enquanto dezenas de lembranças afloravam à memória, trazendo à tona cenas que há muito eu julgava sepultadas sob as cinzas pesadas do passado. Bastou apenas que soprasse o vento calmo de setembro para que as velhas brasas ressurgissem como se fosse o presente. Cedi à insistência do recordar e adentrei o mundo do passado. Era setembro e o vento cortava as ruas, enquanto o sol fraco dos últimos dias de inverno tentava aquecer as mentes quase adormecidas. As pessoas caminhavam apressadas, cabeças baixas, sentindo as consciências culpadas por estarem voltadas apenas para si mesmas. Não havia diálogo nem comunicação e muito menos fraternidade. Eu também buscava alguma coisa. Não gostava do frio e detestava o vento, mas eles existiam e o único remédio era esperar ansioso a volta da primavera, do colorido das flores, dos sorrisos que haviam se apagado pelo inverno que terminava.
Foi ao dobrar a esquina que eu a encontrei sorrindo. Tinha olhos verdes, como a própria esperança, cabelos loiros, compridos e que, como criança, brincavam de bailado com o vento teimoso que os agitava. Parecia uma visão apenas, mas era a realidade. Seu sorriso era o próprio sol e o verde brilhante dos seus olhos representava a garantia do retorno de dias mais alegres e felizes. Naquele momento alguém lembrou de nos apresentar. Trocamos algumas palavras formais e o que seria uma amizade foi nascendo, a princípio tímida e hesitante, mas depois, cheia de luz e calor. Falamos de tantas coisas que o tempo passou assim, quase sem ser percebido. Aí, então, ela partiu, mas deixou em seu lugar o calor amigo e suave de uma época. Sua voz, cálida e mansa, insistia em me perseguir e eu tinha certeza de que as recordações seriam sempre eternas, feitas de pequeninas coisas.
  O véu desceu e o presente voltou. Olhei mais uma vez a folhinha na parede. Mês de setembro. Em breve ela estaria de volta e certamente traria consigo um terno sorriso de fraternidade, um pouco mais de calor amigo. O seu nome, eternamente delicioso em todas as sílabas, é simplesmente “primavera”. Logo ela estará retornando e trará consigo todo aquele calor humano que o inverno inclemente levou. E quando ela estiver reinando, transformando os áridos em flores, haverá sempre a esperança de que seja um “calmo setembro...”


(47 linhas)
PPreto
Enviado por PPreto em 23/10/2007
Código do texto: T706382

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Sobre o autor
PPreto
Jaú - São Paulo - Brasil, 74 anos
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