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O que nos contam os brechós

Até hoje não sei explicar porque razão vim a fazer graduação em História. Sei bem da influente importância de alguns professores para mim, especialmente os de História. Mas isso não explica tudo. Cedo descobri que a História é repleta de segredos, subversões e novidades, ingredientes que sempre me atraíram. Li há um ano o livro “O Historiador”, de Elizabeth Kostova e sei que muitos leitores decerto se apaixonariam pela narrativa de uma jovem que vasculha a biblioteca do pai,  encontra um livro antigo e um maço de cartas amareladas. Quem ler o livro verá que as cartas foram todas endereçadas a "Meu caro e desventurado sucessor", o que veio a fazer a jovem mergulhar em um mundo com o qual ela nunca sonhou - um labirinto onde os segredos do passado de seu pai e o misterioso destino de sua mãe convergem para um mal inconcebível escondido nas profundezas da história.
Na verdade, o livro refere-se à caça à verdade sobre Vlad, o Empalador, o governante medieval cujo bárbaro reinado gerou a lenda de Drácula. E não conto mais, porque o leitor perderia talvez seu interesse em lê-lo algum dia.
O fato é que coisas antigas podem ser revisitadas com outro olhar e revelar segredos, mistérios e sombrias esperanças, até mesmo aquelas que jamais pudemos supor. Esse é um dos encantos do trabalho do historiador, mas não somente dele. E ainda bem!
Dou-lhes o exemplo dos proprietários de Brechós. Para quem não sabe, os brechós são lugares em que se pode comprar objetos e roupas usadas, geralmente de boa qualidade e a um preço bastante acessível. Os proprietários de brechós ficam à caça de preciosidades descartadas, o que faz com que exercitem sua sensibilidade e olhar criterioso, como ninguém.
Mas há quem diga que no Brasil os Brechós não têm lugar, pois falta-nos sofisticação. Contudo, em algumas cidades os brechós são lugares refinados e bastante freqüentados, movimentando uma parte – se não significativa, pelo menos uma parte criativa – do mercado de roupas. Muitos proprietários de brechós desenvolveram a capacidade de enxergar valor naquilo que foi descartado, trazendo objetos dispensados por alguns para o universo de valores de outras pessoas. Eles fazem algo semelhante à jovem que, ao abrir um livro empoeirado e esquecido na biblioteca do pai, viria a trazer ao presente um precioso universo de novas questões.
Há quem diga também que em cidade pequena os brechós não têm vez, porque as pessoas se conhecem e jamais se arriscariam a comprar uma roupa usada por alguém supostamente bastante conhecido. Quase sempre, contudo, isso não se sustenta, pois os proprietários destes brechós costumam realizar suas compras em outras paragens, já sabedores desse tal temor. Além disso, vigora – por razões diversas – a idéia de que as roupas de pessoas mortas incorporam as suas antigas energias.
A despeito destas crenças, em muitos lugares, inclusive em pequenas cidades,  os brechós são a “hora da vez”, especialmente entre o público jovem. Neles de tudo se pode encontrar – desde roupas de marcas famosas até aquelas bastante comuns, mas o fato é que num brechó você provavelmente terá gratas surpresas, desde que exercite o lado “detetive”, esteja disposto à garimpagem e se desfaça de alguns preconceitos.
Eu recomendo que você se aventure a visitar, em Pedro Leopoldo, MG, o nosso único brechó: “Nova d’novo”, de propriedade da simpática Suzana Carvalho. Ela nos conta fatos curiosos, como, por exemplo, o ocorrido recentemente com alguém responsável pelo figurino de novela da Globo que, em visita à cidade, teria por lá passado à procura de uma roupa para um tal personagem barango dos plim-plins. Evidentemente, não encontrou, pois a marca dos brechós é a (re)valorização do belo, arrojado e requintado objeto. Por isso, provavelmente você não encontrará também uma roupa para o famoso Baile dos Barangos no brechó da cidade, aliás, altamente freqüentado por pessoas de outras localidades, mas não pelas pessoas daqui.
Há ainda muita desinformação, como no caso de pessoas que consideram os brechós algo sinônimo aos “bazares de roupas”. Toda roupa de um brechó passa por seleção de qualidade e higienização (pelo menos nos brechós mais refinados) e o curioso é que há pessoas que de fato jamais entrariam num deles sob medo de olhares alheios. Contudo, o preconceito contra brechós parece se dar mais por desinformação do que propriamente por um juízo sustentado. E o afluxo prazeroso e despretensioso de jovens em Pedro Leopoldo ao Brechó pode, talvez, atestar isso.
Talvez também por conta de meu apreço pela História e pelo trabalho de pessoas que sabem olhar o passado com olhos no futuro – como a Suzana – tenha eu me encantado pelo seu brechó, um lugar especial em que convivem sensibilidade, requinte e novidades. E, claro, onde você poderá bater um bom papo, ouvir e contar histórias.

Publicado originalmente no Jornal AQUI, Pedro Leopoldo, MG, julho 2007. Direitos autorais reservados.
Júnia Sales
Enviado por Júnia Sales em 29/10/2007
Reeditado em 10/11/2007
Código do texto: T714476

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Sobre a autora
Júnia Sales
Pedro Leopoldo - Minas Gerais - Brasil, 49 anos
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Júnia Sales