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Os colibris e o jardim

    Pela décima vez prometia investigação. Como limpar a chuva?   Era o máximo da submissão e o assunto residente na nova pasta.  Estava enojado. Malditos 9.99 segundos de afeto verdadeiro no começo. De fato, desde as primeiras tentativas de solução sensível, o relatório permanecia pessimista e os invernos rigorosos. Esteve a ponto de partir para descrição daquilo que realmente sentia.  O grito no meio da noite ecoou num resto tímido de fantasia consciente, quando ainda estava para se desligar dos fatos. Os agônicos sons dos pássaros morrendo no início da aurora. Diferente dos sons metálicos da produção no ermo.  Precisava cobrir os ouvidos ou se acostumar com eles. Apertou o botão do lado direito e reduziu o passado remoto, perdendo vinte e cinco centavos por isso. Quando despertou do transe de consumo interno, ficou observando a exclusão silenciosa do arvoredo.   Despertou novamente entre o aviso e o signo. O aviso: deveria despertar. O signo: indicava a matemática dos passos.  Entreabriu a janela. Percebeu a chuvarada escorrendo pesada e imunda. O clima produzindo absoluta necessidade de devorar o pedaço de segredo desse último e inútil sonho fragmentado. Conseguiu apenas finalizar a frase: Permanece chovendo e secando alternadamente.  Relatório 15. Linha 23. Estava febril, arcano e com alma de malária.
Concluiu que a camada grossa de porcaria, inserida no antigo céu azul, começaria lentamente a desabar pouco a pouco. Essa camada espessa se formava como película de verniz lançada na terra por engano. Temia que o rompimento do éter oferecesse o empuxo de massa terrestre para um  ambiente desconhecido, enfraquecendo a produção de oxigênio e a oxigenação da esfera. Linhas de furacões subiriam e se perderiam na abóbada celeste.  De fato: há mais abstração do que mundo concreto porque tudo se desfaz. Sabia de memória que as ilusões mergulham a alma em sua natureza, nem sempre singela, mas com esperança. Que sem noção de agrado singular o coração feneceria.
    Respirou fundo para reescrever tantas palavras, porém prestes a codificar em regras a essência esquecida, tais placas cairiam sobre todos em pouco tempo. Conhecia também o quanto era impossível soar um aviso claro e lastimou.
    Quando retornou da atividade mecânica reviu cenas impiedosas e confusas.  Bebeu água controlada no balcão seletivo arfando de fome prematura. Seguiria amanhã para o inquérito. Ocupado em procurar vestígio de “afeição humana” nas páginas do processo.  Trabalharia sentindo na pele a ausência de benevolência no mesmo solo devastado. O mesmo terreno cuja vegetação abatida apresentava inconfundível sinal de glória. Temeu o estado crônico sem um pingo de benignidade.
     Tentou abrir nova inquirição sobre a ausência de razão mágica. Era primogênito desse programa básico cujo excessivo senso lógico valeria o esforço em matéria e nada mais. Embora oculto o rosto da existência real (número foxe)  observou o antigo telefone tocando na sala.  Um telefone que ninguém atenderia.
      Relatório: O sossego reserva certa espessura de pó. O pó desenha miríades de formas esquipáticas pela brecha de luz advinda das cortinas semi-abertas.  Luz tênue escorregadia pela janela para o tapete e do tapete para o relógio e do relógio para a fonte residual.   Longe a cidade ocupada por milhões de habitantes no ambicionado laboratório social. A chuva imunda mancharia a pele e surgiriam bolhas, pestilências e assaltos. O fluxo se tornaria irrefreável. A deferência excessiva sobre ilusões desmoronaria por si mesma em todos os mitos. E quando se libertassem os entraves falsamente utilizados para abrandar a vida, perderiam a fome poética. Equívoco demonstrável da inteira necessidade de infundir ao âmago a fortuna inexistente.  O mesmo que riscar na escuridão o fogo-fátuo na estação. Estou convencido de que essa é a causa primeira dos males: envergonhar o instinto e substituí-lo como recurso das emoções consagradas. (Segunda frase inacabada). Dos nove ou dez avisos três eram dignos de especulação. Caberiam nas alíneas. Encaixar-se-ia no vasto maquinário verbal do robô encobridor.  Assinatura e juízo sentencial. Estava mal disposto, tanto pior, branco como o mármore. A decisão seria preparar a nova referência para retorno da natureza em decisão de gabinete. Acordo comum.  Regras especificadas e códigos estabelecidos sem absoluta necessidade de exame. Estavam certos de conhecer o caminho de volta. Procurou mentalmente o aforismo, mas compreendeu cada sentido como  impróprio, sem força de persuasão. Antes de sair observou o espelho e comentou sobre a aparência. Lembrava um estúpido senhor com poética cruel de meia mentira inventada para desencantados. Ouviria o canto cínico e heróico dos subjugados na sarjeta da glória.
     Lá fora o jardineiro e o carrinho de mão. Depois veio muita chuva. Imagens fosfóreas, difícil de distinguir a distância em que se encontrava.  Seus olhos brilharam criando a impressão de que havia desabado o arco-íris naquele recanto de sala. Cacos visuais recolhidos pela rústica pá do funcionário, elas criavam uma visão sublime e mórbida. A reação abstrata ocorreu quando descobriram o que havia de estranho no carrinho.
    - Começou na terça-feira pela manhã, disse o hortelão para anotações. Isto é, anteontem.   O tempo estava fresco e foram recolhidos duzentos quilos de colibris mortos no jardim.
Tércio Ricardo Kneip
Enviado por Tércio Ricardo Kneip em 30/10/2007
Reeditado em 29/10/2010
Código do texto: T716079
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Sobre o autor
Tércio Ricardo Kneip
Santa Vitória do Palmar - Rio Grande do Sul - Brasil, 55 anos
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