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João sem-medo

“Manda bala, João”.  Eu assistia, faz muito tempo,a uma mesa esportiva na antiga Manchete, quando Paulo Stein, comandando o programa, passou a palavra ao João Saldanha, que seguiu, sério, mandando bala. Não contive o riso, o que procurei explicar a um amigo intrigado. Fiz,  àquela  época,  um relato seguramente mais completo e fiel do que a lembrança me traz agora.

João Saldanha escrevia para o Jornal do Brasil e, dias antes, publicara uma crônica intitulada “A pilha do gato ou o gato da pilha” (perdoem-se, se me equivoco). O cronista narrava que tinha adquirido, na farmácia próxima à sua casa, pilhas para o seu radinho, as quais não funcionaram, no teste em domicílio. Resultado: o cronista desentendeu-se na farmácia, exatamente porque não lhe queriam devolver o dinheiro ou lhe dar novas pilhas. O João sacou da arma e deu um tiro no chão. O enredo é mais ou menos esse... Lembram-se do símbolo das pilhas Eveready? Era um gato... Daí a sacada genial para o título da crônica, que certamente deve se encontrar (ou se encontrará) em alguma coletânea dos textos do João.

Acredito que o programa tenha sido exibido lá pelo finzinho da antiga Rede Manchete, portanto o João Saldanha já era o João sem-medo, apelidado pelo genial Nelson Rodrigues, em uma de suas crônicas antológicas.

A crônica 'João sem-medo' é de novembro de 69, e nela Nelson nos explica as razões para o apelido. Quando Saldanha foi escolhido para a seleção do tri, vejam a reação do cronista: “Ao ter a notícia, berrei: — ‘É o técnico ideal!’ Um amigo meu, bem-pensante insuportável, veio
me perguntar: — ‘Você acha que o João tem as qualidades necessárias?’ Respondi: — ‘Não sei se tem as qualidades. Mas afirmo que tem os defeitos necessários.’ E, realmente, o querido Saldanha possui defeitos luminosíssimos".
 
E Nelson vai elencando os defeitos  do João. O primeiro é ser furioso: “Não acendam um fósforo perto dele que o João explode”.  Nelson prossegue, exagerando (ou inventando?)  na retórica: “ele fará qualquer negócio para o Brasil ser campeão do mundo e voltar com o caneco de ouro”.

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E Nelson continua dizendo que o escrete (uma palavra que aportuguesaram, mas morreu) estava doutrinado pelo João para não aceitar desaforo (eram as feras do Saldanha – os mais antigos certamente se lembram) e que o técnico, na linha da molecagem carioca, foi para a Europa estudar os adversários e saiu falando que o futebol lá é uma carnificina. Curtam: “Disse, ou por outra, berrou isso em todos os idiomas. Hoje, até os esquimós sabem que, na Europa, os jogadores bebem o sangue do adversário como se groselha fosse”.   Uma pequena falta – diz Nelson – o João é capaz de alardear como um assassinato.


Na verdade, com a licença do inesquecível cronista, Saldanha merecia mesmo esse apelido de João sem-medo, muito mais pelo que foi fora do futebol e da seleção imbatível que ele armou... Um time que jogou, venceu e não deixou dúvidas... Era o time do João, àquela altura não mais comandado por ele, mas por Zagalo, que mexeu pouco na escalação  e cedeu aos reclamos da ditadura vigente à época,  que não intimidou o João.


Saldanha gostava de Dario, que era bom jogador, mas não cabia na Seleção. O general Médici, a quem Saldanha se referiria, anos depois, como usurpador , queria aquele atleta entre os selecionados, e o técnico sofria pressões. Em entrevista a Geneton Moraes Neto, João sem-medo fala do episódio: “Eu não convoquei. [...]. E, aí, entrei num atrito desvantajoso. [...] Se eu convoco Dario, tudo bem. Eu ia me avacalhar! Mas não tenho hábito de me avacalhar e não me avacalhei”. Resultado: até sua viagem para chegar ao México como comentarista foi dificultada. Gastou três dias... Na citada entrevista, ele conta também que em 1968 ele visitara amigos políticos que estavam exilados no Uruguai e foi posto nu no Aeroporto do Galeão. Seria por que foi visitar um cara que morava no mesmo prédio do Brizola? De novo no Uruguai, noutra vez, ele almoçou com João Goulart – uma conversa trivial – e, quando voltou, o botaram nuzinho no Aeroporto.


E eu poderia dizer mais da entrevista do Geneton e das crônicas do Nelson, que a memória está fresquíssima, mas creio que cheguei ao ponto.   A entrevista é lida em ‘Cartas ao planeta Brasil’ e, para quem quiser se deliciar com o Nelson Rodrigues, o livro ‘A pátria de chuteiras’ está disponível na internet. Quanto ao João, ele deixou mesmo uma grande lacuna, sobretudo nestes tempos em que sua coragem e inteligência não nos faltariam para discutir o futebol e o Brasil. Sem medo.








Walter Rossignoli
Enviado por Walter Rossignoli em 16/01/2021
Reeditado em 16/01/2021
Código do texto: T7160837
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Walter Rossignoli
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
303 textos (25490 leituras)
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