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ANÁLISE FRUSTADA

Tive um distúrbio de pressão e o médico me aconselhou, além da medicação, a procurar um analista. Não sei o porquê disso. Talvez por estar próxima da mudança biológica da meia idade, ele julgou assim. Era para ir? Fui.
Na primeira consulta o profissional sugeriu que eu fosse fazer análise em grupo, nem me deixando contar alguma coisa de mim. Era pra ir? Fui.
Éramos umas oito pessoas, variando a idade entre os trinta e cinqüenta e pouco anos.  A apresentação individual me levou a conhecê-los: quase todos da classe média, gente bem tratada, bem vestida, pelas conversas dava para perceber que estavam razoavelmente bem de vida, casa própria, todos de carro etc. Somente uma das pessoas estava desempregada formalmente, mas “se virava” em pequenos trabalhos dentro de sua profissão.
 Se fossem analisar bem, eu estava em pior situação que todos eles: casa alugada, sem carro, sem emprego formal, sobrevivendo de serviços variados, sem renda fixa. Eu ia sempre bem arrumada porque, após a sessão de análise, seguia eu com uma amiga para uma casa noturna onde ela cantava e encantava a todos, inclusive e principalmente a mim, sua fã antiga. Após o show ela me levava em casa satisfeita e feliz de me distrair. E eu satisfeita, feliz e distraída.
Mais ou menos resumindo, os casos eram os seguintes:
O desempregado era muito tímido, sentia-se inseguro, quase apavorado por estar sem estabilidade financeira. A mulher lhe cobrava sempre.
Outro não conseguia dormir há anos; queixava-se de passar as noites em claro.
Uma moça nova, divorciada, com duas filhas,  estava começando um namoro e sentia-se constrangida em apresentá-lo a elas e o rapaz queria compromisso mais sério.
Uma senhora estava meio sem rumo pela viuvez  recente.
Uma outra, também divorciada, filhos adolescentes, morava com um homem que lhe dava muito aborrecimento por não ter trabalho fixo, dar-lhe despesa demais e beber também muito.
Uma moça era muito tímida e queria vencer-se, conseguindo ter atitudes firmes  no trabalho sem deixar que “pisassem” nela.
Uma senhora tivera câncer no seio, fizera quimioterapia e vivia apavorada cada vez que tinha que retornar para exames de manutenção.
E eu.
Dito assim, parece uma peça de teatro, cada um representando seu papel. Assim eu via.  O médico permanecia quieto em uma poltrona bem confortável, em um canto da sala, numa semi-escuridade; não dava palpites e quando lhe pediam opinião, transferia a resposta para outro paciente. O ambiente era iluminado por um abajur de pé que ficava a um canto.
Um convite a confissões e relaxamento.
A mim dava sono.
Sentávamos em cadeiras comuns, até desconfortáveis. Acho que por essa razão, conseguia ficar acordada. Alguém começava a falar de si, fazendo considerações sobre as sessões anteriores  e o que tinha significado para seu problema.
Eu permanecia só observando. O ser humano exerce em mim um fascínio irresistível, é imensamente rico em variações sobre o mesmo tema, a eterna busca de respostas a perguntas geralmente mal feitas, sem objetivo definido e por demais confusas. Se aprendessem a fazer as perguntas certas, com certeza teriam as respostas adequadas. É muito interessante.
Fico procurando reformular as perguntas de acordo com cada um, ou então, imaginar as respostas perfeitamente adaptadas àquela pergunta mal feita. Não sei se me explico bem, mas também não importa muito, é  preciso não esquecer que  afinal de contas estávamos em uma sessão de análise, não em uma aula de filosofia...
As coisas transcorriam inevitavelmente da mesma forma. Cada um falava um pouco de si, queixava-se das mesmas coisas de sempre, os outros imaginavam soluções, davam conselhos, contavam experiências próprias.
Eu, quieta.
Quando cobraram meu silêncio, para satisfazê-los, contei alguma coisa de mim, minha família, atitudes perante a adversidade, minha imensa alegria de viver, meu realismo, minha inquietude pelo aprimoramento desta minha alma aventureira. Tenho problemas, sim, existenciais, espirituais, materiais, de saúde também, contudo estou lúcida em cada um deles e, principalmente, tenho muita paciência comigo mesma e com o meu ritmo lento de aprendizagem de vida.
Às vezes meu biorritmo dá uma descida, mas procuro arejar minha cabeça, saindo, conversando, ou outra coisa qualquer, para não ficar deprimida.
Era muito prazerosa aquela chance de conhecer gente. Era? É, era. Acabou.
O fim foi chegando devagar, nem eu mesma percebi.
De tanto escutar o homem queixar-se de insônia, sugeri que vendesse a cama, talvez assim sentisse falta dela e comprando uma outra, conseguisse dormir.
À moça constrangida pelo namorado novo e as filhas, dei a idéia de largá-lo sozinho no apartamento com elas e saísse de lá, deixando estourar a situação.
De outra feita, não agüentei ver o sofrimento daquele homem inseguro e convidei-o a sair comigo numa das minhas noitadas de música, fazendo assim algo  inusitado em sua vida medíocre. Ficou vermelho, roxo, tossiu, murmurou qualquer coisa, acho que uma negativa. Podia não conseguir emprego, mas  palavra que ia fazê-lo divertir-se muito.
 À queixosa madame daquele parasita, disse que parasse de lamuriar-se e tivesse mais brio na cara. Todos davam sugestões que ela nunca acatava, porque seu prazer era queixar-se e não arrumar solução para seu problema! Foi a maior confusão, ela se ofendeu e chamou-me de grosseira. Acho que fui.
Um dia apareceu uma moça bonita, sedutora, nem me lembro do problema dela. Sentava-se fazendo pose, insinuava-se aos cavalheiros, deliciosamente provocante. Divertia-me observando disfarçadamente os olhares masculinos de um jeito e os femininos de outro. Em uma sessão em que ela faltou, a viúva criticou-a de todas as maneiras, dizendo que ela não  tinha compostura, que estava querendo conquistar o médico e mais, mais...
Não resisti:
- Você está é com inveja porque ela tem coragem de fazer o que tem vontade. O doutor é bonito mesmo e você se delicia em olhá-lo, porém jamais terá coragem sequer de dizer isso a ele. Não é verdade?
- Ora veja, que horror, não é nada disso.
Foi a resposta indignada. Eu me diverti demais nesse dia.
À moça  do  câncer  eu   procurava   dar   meu   apoio,   meu   afeto,  minha solidariedade  e  simpatia  e à  tímida  também.  Ela  se  divertia vendo minha irreverência. Acho que aprendeu alguma coisa com minha insensatez e ousadia. Tomara.   O tímido disse que não entendia porque estava eu ali com eles, uma vez que parecia não ter problema  algum. Disse ele:
- Qualquer hora você vai dizer - chega - e vai embora.
Fui.                                                                                                                  
Rachel dos Santos Dias
Enviado por Rachel dos Santos Dias em 31/10/2007
Código do texto: T717022
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Sobre a autora
Rachel dos Santos Dias
Campinas - São Paulo - Brasil
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