Não é o que parece

Fazer juízo antecipado das coisas é algo que nos persegue e vez por outra somos flagrados cometendo algum desatino. Isso contrariando os ensinamentos que sempre nos alertam dos riscos dos julgamentos baseados no “achismo”. Quando temos a oportunidade de refletir sobre o que fizemos ou pensamos, menos mal, serve como lição. Nos faz crescer, além de nos dar a oportunidade de reconhecer o erro, mesmo que esse tenha sido sobre algo banal, com mínimas consequências, sem ferir ninguém. Mas sempre é bom pensar que poderia ter causado algum estrago.

O caso a seguir me parece bem exemplar. Numa breve passagem por São Paulo, em tempos não epidêmicos, fui com duas amigas ao teatro. Lá veríamos o musical Miss Saigon, já há algum tempo em cartaz na cidade. Ressabiado com a instabilidade do clima paulista e imaginando a frieza do ar condicionado da sala de espetáculo, não hesitei em carregar comigo um blusão protetor. O mesmo aconteceu com uma das colegas, o que deixou a outra temerosa de estar cometendo uma insensatez, por não ter levado também essa peça de vestuário. Confiou no tempo que estava fazendo ao sair e na economia de energia da casa de espetáculo, que talvez não funcionasse com a climatização a plena carga.

Chegamos e ficamos na fila, aguardando a vez de comprar os sonhados ingressos. De repente surgem duas jovens senhoras, também com a pretensão de ver o espetáculo, trajadas de forma a se defender de um frio antártico. Olhamo-nos, eu e as meninas que estavam comigo, além de todos os que estavam em volta. O comentário ferino da minha parte foi inevitável: se viesse o frio que aquelas mulheres estavam esperando, íamos todos congelar na sala, especialmente a minha amiga que não havia trazido o seu agasalho. Pelos olhares trocados entre as demais pessoas que estavam na fila de espera, tais pensamentos não eram só nossos. Os cochichos indicavam isso.

Afastamo-nos um pouco da fila, deixando somente uma das meninas para comprar os ingressos. Após a aquisição, já bem instalados em nossos lugares, a amiga que ficara na fila comentou sobre a conversa mantida com uma das senhoras vestidas para passeio no pólo norte, alvo das nossas insinuações maldosas. Ela chegou a pedir à minha colega que a deixasse passar à sua frente para comprar os ingressos, a fim de se esconder no escuro da platéia, já que elas viam pelos olhares das pessoas, que imaginavam que elas “não batiam bem”. Na verdade as duas haviam acabado de chegar de Campos do Jordão, onde enfrentaram uma temperatura de 6 graus, e por isso estavam vestidas daquela forma. O desejo de assistir à peça era tanto que não queriam correr o risco de perdê-la, se fossem trocar de roupa em casa. Era essa então a razão, perfeitamente explicável, delas estarem ali com roupas que destoavam das demais pessoas.

Fiquei com a cara no chão. A outra colega esboçou um sorriso amarelo e ainda balbuciou um ‘Deus me perdoe’, acreditando que Ele livraria a sua cara na hora do juízo final.

Ficou mais uma vez a lição: antes de julgar o outro, de emitir algum juízo de valor sobre o que está, aparentemente, à sua frente é bom conferir os fatos. Nem sempre o que vemos, sob o nosso ângulo de visão, é a verdade verdadeira.

Fleal
Enviado por Fleal em 02/02/2021
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