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A CAPOEIRA EM DEBATE

    A CAPOEIRA EM DEBATE
"Não tem quarto / e
nem tem sala...
é a Senzala, é a Senzala" !
me. TONI VARGAS (trecho)

Uma amiga negra -- nigérrima nos seus conceitos e opiniões -- me convida para ver "live" sobre debate "na Senzala", nesse caso, no Grupo onde conheci a Capoeira e do qual participei (entre 1975/77) mais como "turista" a observar tudo, do que como praticante efetivo. Realmente, o debate precisa "voltar à senzala", o Negro sumiu da prática dela -- "recusava-se a voltar a ela", dizia eu em texto antigo -- contrariando o que se via em fotos e filmagens dos anos 40/50 do século passado e em desenhos de Debret e Rugendas ou, ainda, do baiano magnífico Carybé. As "senzalas" não findaram no Mundo, muito menos no Brasil... nasci numa, com o título de favela, um cômodo só -- ou nem "casa" seria -- sem quarto nem sala. A pobreza, quando não miséria de milhares, talvez milhões, precisa continuar existindo para sustentar a riqueza de uns poucos.
Não é justo nem correto alijar o Negro de sua prática ancestral, sob pena de descaracterizá-la propositalmente. A Capoeira muda, sempre mudou, mudará constantemente... já SE ESTUDA Capoeira, se escreve sobre ela, pesquisa-se, debate-se ! Precisamos analisar "até onde" se quer levar tais mudanças, se a Capoeira as pede, se necessita delas ! Vejo no YouTube um "martelo rodado carpado" ou coisa que o valha... precisa de espaço para ser feito, coisa que Roda normal não tem. Se cair sobre alguém, do público ou seu oponente, aleija ou mata.

As "inovações" continuam, mestre Bimba as inaugurou, "tirando as porcarias" da africana Angola, no dizer de mestre Atenilo, em oportuno livreto de mestre Itapoan, com 3 obras essenciais (se não publicou outras mais) à compreensão da Capoeira como um todo. Também se faz necessário o registro dela que conste dos Jornais e revistas de cada período, relacionar seus discos, CDs e livros, o que vem provar a importância dela no caminhar das Eras. Waldeloir Rêgo já fazia isso de forma exemplar, viu a proeminência da prática no seio do povo baiano. Precisamos RECONTAR seus passos a partir de Pastinha e Bimba, porque foram os alunos de ambos que sustentaram suas Histórias e repassaram seus conhecimentos.
A Capoeira precisa de "modernidades" ? Não, mas quer tê-las ! A Capoeira pode voltar ao Passado ? Poderia, mas não pretende e nem vai ! Embora em desenhos, Lamartine P. da Costa e Carybé (Pierre Verger, em fotos) foram os que melhor registraram a prática antiga como ela era, testemunhas da História ! Livro oficial analisando em 1990, salvo engano, um campeonato de Capoeira -- essa "desgraça" nascida no Rio em 1970 ou 73 -- chega à conclusão que apenas meia dúzia dos 30 ou 40 movimentos "classificados" na época foram utilizados pelos disputantes.
Que "Capoeira" é essa ?! O que vemos no YouTube hoje ?! Interminável série de armadas e queixadas, feitas por todos em TODOS os jogos ! Raras são a meia-lua, a bênção, as rasteiras, bandas ou cabeçada... o quesito maior é a VELOCIDADE dos golpes. Mestre Bimba foi um inovador -- por vezes infeliz, com seus "godeme" e "cintura desprezada" -- mas ESTRUTUROU a prática dela com sua visão moderna, objetiva, com suas "7 ou 8 Sequências" e facilitou (quase diria eu, PERMITIU) que ela se expandisse, chegasse aos nossos dias. Se dependesse da Angola... "o segredo da Capoeira morria com cada velho Mestre" dela !

Bimba inovou (?!) retirando da Angola a lentidão irritante nascida com o cativo negro que a criou em terras africanas e também as "bobagens", "porcarias" na visão dele, limitada pela objetividade. As "brincadeiras" dessa BRINCADEIRA DE ANGOLA, vinda de Angola está subentendido -- como assim a viam tanto o capataz quanto o senhor de engenho, o Barão -- disfarçavam a LUTA, "camuflavam" golpes mortais, escondiam o treino incessante de músculos e vontades que alimentavam a "ânsia de liberdade" que nosso "blues verde-amarelo" expandia, em ladainhas, nas vozes sofridas e amarguradas.
Manoel dos Reis Machado era músico "de mão cheia" (e que mãos), criara toques e queria o melhor em suas Rodas... voltemos à Atenilo, o "Relâmpago da Capoeira": "o mestre requisitava os melhores tocadores da "Angola" (e não DE), chamava-os pro nosso grupo. Isso aborreceu o pessoal lá do Pelourinho. Quando um deles quiz voltar, os angoleiros o recusaram" ! Em "Perfil do Mestre", Itapoan lembra que depois de um teste de sobrevivência aos estilo dos quartéis (as "emboscadas") se ganhava título de FORMADO (ou mestre) de sua Regional, mas o lenço branco -- de "mestre charangueiro" -- só recebia quem tocasse bem e cantasse também.
E é na parte musical que a Capoeira "modernizada" vem perdendo sempre mais: berimbaus que não se ouvem, mestre que canta mal (alguns já usam microfone nas Rodas) e letras pavorosas, bobagens grotescas de quem pouco ou nada sofreu na Vida, além de "ANIMADOR" (?!) circulando ao lado dos jogadores.

A CAPOEIRA MUDA... sempre mudou ! Pois que MUDE... para trás, agora ! Ainda que tenhamos 2 momentos bem distintos da prática dela, 1) nos anos 60/70 no qual o jovem trabalhava o dia todo e ía treinar só à noite -- cansado e mal alimentado, o mestre também -- e hoje, 2) com alunos que podem aprender bem a Capoeira e praticá-la da melhor forma possível, o fato é que MESTRE RUIM é um absurdo e nem deve ser tolerado.
Prezo o título de MESTRE e, enquanto Folclore, sei da sua importância tanto para a comunidade quanto para os praticantes, nos quais não me incluo. Quem não aprendeu direito no Passado -- por dificuldades, incompetência ou PREGUIÇA -- não pode ter título de mestre (muito menos os alunos atuais)... esse privilégio NÃO É FAVOR, no Folclore que ela ainda é representa Conhecimento, DOMÍNIO da Arte na qual está, onde construiu seu nome.
Uma Confederação apressada, em 1993 "reconhecia" sem testes, entrevistas nem pesquisas "os velhos mestres", alguns meros mentirosos sabendo pouco mais do que um aluno comum.
Protestei... em 3 páginas lotadas com 23 questionamentos "puz abaixo" o REGRAS GERAIS quase inteiro. O "doutorzão" que a comandava preferiu ignorar meus argumentos, me desautorizando a mexer naquela "sandice". E o que vemos agora ? O milenar conceito de MESTRE -- nível máximo de qualquer Arte ou atividade -- eivado de "coisinhas", de degraus (?!) medíocres que só ridicularizam quem os ostenta !
Pior, velhos sabendo pouco e que pouco se dedicaram, sendo elogiados e aclamados ! A Capoeira não precisa de FARSAS, prescinde delas, é prática de valor... se sustentarmos farsantes em seu meio iremos DESTRUÍ-LA ! Ainda não vi o tal "Debate na SENZALA" mas receio fazê-lo, temo pelo que posso ouvir no citado vídeo !
    "NATO" AZEVEDO (em 23/fev. 2021, 5hs)
NATO AZEVEDO
Enviado por NATO AZEVEDO em 23/02/2021
Código do texto: T7191116
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
NATO AZEVEDO
Ananindeua - Pará - Brasil, 68 anos
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NATO AZEVEDO