Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

GENTILEZA

Fui abordada por um desses rapazes insistentes que teimam em limpar o vidro do carro. Mesmo dizendo não, ele continuou o serviço com a habilidade de quem pratica há muito tempo. Enquanto  limpava, eu  pensava na retribuição. Procurava por todos os lugares algo menos graúdo que a única nota de  cinqüenta que jazia em minha carteira. Todos os bolsinhos e buracos vasculhados e não encontrei nada, nem uma balinha para tentar adoçá-lo .

Abri o vidro e  lhe disse que não teria como pagar imaginando o ato de violência que viria a seguir: uma ofensa, um serviço inacabado e porco, uma cusparada ou qualquer outra novidade lançada neste mundo das ruas. Que nada. O rapaz sorriu, completou o trabalho sem pressa e apenas me disse que depois eu pagava.

Fiquei espantada e logo lembrei dos trocos de padaria , quando o caixa nos diz que ficamos devendo aqueles dez centavos e pagamos na próxima.Acontece que a próxima demora e quando acontece a gente já se esqueceu. Com o rapaz seria a mesma coisa. Talvez ele pensasse que aquele fosse meu caminho de todo dia e na certa  me lembraria dele, pagaria a dívida e em outras ocasiões solicitaria,em meio a tantos concorrentes, a exclusividade de seus serviços.

O sinal abriu e continuei meu caminho pensando no acontecido e na possibilidade de as pessoas não serem tão ruins. Minha cabeça urbana, ainda não tão envenenada por medos, seguia pensando  feliz. Mas,do nada,  lembrei-me daqueles alertas que nos chegam por e-mail e um "veneno virtual" de dias atrás começou a fazer efeito. O cara não era bonzinho coisa nenhuma. O cara ia avisar um  parceiro que aguardava em outro farol, ele ia me abordar porque eu estava sozinha, porque eu era mulher, porque mexi muito na bolsa, porque ele viu minha carteira, porque eu estava arrumada, porque eu usava brincos , porque eu tinha relógio, porque meu carro tinha música, porque sei lá quantas coisas. Precisava ficar atenta, esquecer os pensamentos bonzinhos, olhar para os lados, fechar bem os vidros, colocar óculos escuros e, se nada funcionasse,  não resistir ao pior.

Nada aconteceu.  Segui sinais e mais sinais. Não havia qualquer parceiro do limpador. Que pensamento mais besta. Cheguei em casa com um texto a escrever, um antídoto contra os venenos do medo. Será que ninguém pode fazer apenas um ato de gentileza?
Maria Alice Zocchio
Enviado por Maria Alice Zocchio em 02/11/2007
Reeditado em 06/12/2007
Código do texto: T720176
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Cite o nome do autor). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Maria Alice Zocchio
São Paulo - São Paulo - Brasil
101 textos (18659 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 15/12/17 10:56)
Maria Alice Zocchio