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Apagar das luzes

- Metade dos homens não sabem muito bem o que estão fazendo quando as luzes do quarto se apagam. E eu acho que estou até sendo generosa quando digo metade... talvez só um terço ou até menos saiba como chegar lá.
- Lá onde? – Perguntei.
- Qual o objetivo de transar? – Ela perguntou com o cigarro entre os dedos, e um dos olhares mais cínicos que eu me lembro ter visto na minha vida.
- Gozar? Fazer gozar?
- Errado.
- Me esclareça então.
- Já saí da cama satisfeita sem ter gozado. E já saí frustrada, mesmo depois de ter gozado.
- Sério?
- Sim.
- Então... Qual o objetivo?
- Estabelecer uma conexão. Você tem que entrar na mente da outra pessoa e não só no corpo. E eu não estou falando de amor ou de paixão.
- Não sei se concordo muito bem com isso. Muita gente transa sem nada disso por aí.
- Pois é. Muitas pessoas vivem insatisfeitas sexualmente também.
- Isso é verdade.
- Pois bem, meu amor. Em geral os homens não estão nem aí pra qualquer tipo de conexão, além de enfiar a rola em algum buraco.
- Isso é bem simplista da sua parte.
- E tem como ser diferente? O que ensinam aos homens desde a infância? Que eles não devem ser sentimentais. Que sentimentalismo é coisa de mulherzinha. Como se ser mulherzinha fosse uma condição inferior. Então... pra a maioria de vocês, é bem difícil se conectar com o que faz sentido pra uma mulher. Já que a maior parte dos homens despreza tudo que vem do feminino.

Fiquei calado enquanto ela terminava o cigarro.  Ela jogou as cinzas no cinzeiro e largou a bituca de lado.

- Quantas mulheres você realmente amou? – Ela perguntou depois de soltar a fumaça.
- Acho que umas cinco.
- E o que você amava nelas?
- Acho que as amei por motivos diferentes. Cada uma tinha algo em particular.
- Mas deve ter alguma coisa em comum.

Me sentei na cama e me pus a pensar, enquanto ela rolava na cama pra pegar a garrafa de vinho que tinha ficado no chão.

- Acho que porque todas elas estavam dispostas a ouvir o que eu tinha pra falar.

Ela riu e tomou um gole de vinho diretamente da boca da garrafa.
- Isso é conexão.

- É.
- E o sexo?
- Como assim?
- O sexo com elas era melhor do que com as outras?
- Com certeza.
- Bem. É isso. Encerro os meus argumentos. – Ela falou, passando a garrafa pra mim.

Tomei um gole e fiquei olhando enquanto ela sorria, como se tivesse vencido algum tipo de competição.

- E você? Quantos homens você amou?
- Só um.
- Sério?
- Sim.
- E o que ele tinha de especial?
- Ele era capaz de me olhar do mesmo jeito. Nos meus melhores e nos meus piores momentos.
- E como era esse jeito?
- Era como se as circunstâncias fossem irrelevantes, contanto que ele estivesse do meu lado.
- Isso é bem intenso e bem particular.
- É sim. – Ela falou com um suspiro.

Estiquei o braço e a repassei a garrafa.

Ela conferiu a quantidade que ainda restava no fundo e bebeu tudo de uma vez. Todos os três dedos.

- E o que aconteceu com ele?
- Eu descobri que estava enganada em relação ao olhar dele. As circunstâncias no fim foram mais importantes do que eu.
- Entendo. Sinto muito.
- Ainda assim a conexão foi real. O amor foi real. Pelo menos da minha parte. E é isso que importa no fim das contas. E pra ser sincera, não acho que eu vá encontrar um olhar como aquele novamente. Nem sentir o que ele era capaz de fazer comigo. Eu escorria como uma cachoeira só dele me olhar.

- Difícil competir com algo assim.
- A vida não é uma competição. Ninguém leva as medalhas pra além da cova.
- Verdade.

- Mas você é muito bom. Você transa como se preocupasse com o resultado. Com o resultado além da cama. Isso é importante.
- Obrigado – Respondi encabulado.

- Sexo é muito bom, mas você tem que ter na sua cabeça que nem todo mundo vale o tempo de uma foda.

- Nisso você tem razão.
- Não acho que eu vá me apaixonar de novo algum dia. Mas existem outras formas de conexão... – Ela disse com um sorriso nos lábios.
- Você parece bem certa sobre essas coisas.
- Sim... Mas já me enganei muitas vezes com minhas certezas.

 Ela saltou da cama e apagou a luz.

Mesmo sem conseguir ver muito bem, eu soube que ela estava se aproximando de mim. E apesar de tudo, naquele momento... no apagar das luzes, eu sabia exatamente o que ela queria que eu fizesse.
Rômulo Maciel de Moraes Filho
Enviado por Rômulo Maciel de Moraes Filho em 08/04/2021
Código do texto: T7226648
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Sobre o autor
Rômulo Maciel de Moraes Filho
Recife - Pernambuco - Brasil, 34 anos
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Rômulo Maciel de Moraes Filho