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Memórias de uma cabeleireira- Capítulo um

Uma vez, não faz muito tempo...Eu era cabeleireira, e antes disso fui assistente de um profissional  estrela na área, com muita clientela, tinha tantas clientes que as vezes passávamos o sábado sem almoço, só na base do cafezinho , ou no maximo um iogurte para não desmaiar de fome. Foi num desses dias agitados em que eu paguei um mico, aliás, este é um tópico que posso explorar bastante, tenho mil historias para contar daquele tempo. Bom, o salão estava bombando, ele tinha três cadeiras, e todas passavam o dia todo ocupadas, o esquema era o seguinte, vou contar para você compreender melhor, eu recebia a cliente, colocava ela na cadeira do Ronaldo e a preparava. E isso quer dizer: Colocar toalha em suas costas e a capa de química, enquanto ele preparava a coloração para aplicar, às vezes enquanto ele aplicava em uma cliente eu já estava recebendo outra ou lavando um cabelo depois do tempo de pausa da química, ou então já fazendo uma escova, ou varrendo, ou limpando os potes de química, ou atendendo ao telefone, ou dizendo a recepção qual trabalho fora realizado nesta ou naquela cliente, ufa!Não pense que era moleza não, era um corre corre danado, barulho de secador, rádio a todo volume, e ainda o matraquear feliz das clientes barulhentas! Acontece que o Ronaldo tinha uma cliente especial, eu achei que era, pois assim que ela entrou conduzida pelo marido, que eu achei um cavalheiro, pois só faltou leva-la no colo até a cadeira. Quando ela estava devidamente instalada, Ronaldo colocou suas mãos sobre as da cliente e muito carinhoso a cumprimentou, vou reforçar dizendo que o motivo da minha surpresa é que todo o cabeleireiro estrela nem se da ao luxo de paparicar suas clientes, elas é que os tratam como reis, bom, continuei no meu corre corre lavando , secando , preparando em fim, então ele acenou, estava no lavatório neutralizando umas mechas, que eu achei, estavam horríveis, mas ele sempre dava um jeito e a cliente saia super satisfeita, esta era sua magia. Ele disse:- Leva a dona Jussara até a poltrona na recepção e coloca a cliente das três horas no lugar dela. Até ai tudo tri, eu era craque em tirar e colocar clientes sentadas aqui ou acolá, cheguei a sua frente e disse: -Dona Jussara, vamos passar para a recepção? Precisamos usar esta cadeira. Certa de que ela viria atrás de mim, me virei de costas e marchei para a recepção a fim de mostrar-lhe o lugar que deveria ocupar. Quando olhei para trás não a vi. –Ué! Por que será, que ela não veio? Pensei. Que droga estou super ocupada e vou ter que voltar lá. Voltei rapidamente, nós nos acostumamos a falar rápido, andar rápido, comer rápido, meu marido ficava louco quando eu chegava em casa com a adrenalina estourando, mas isso já e outra história. Ela estava lá, parada em frente à cadeira, dura como um dois de paus. Olhei para o Ronaldo como quem diz:- É louca? Ele estava ocupado, mergulhado em um tonalizante vermelho sangue, sujando toda a parede como sempre fazia me olhava com uma cara de brabo e fazia sinal para eu pega-la pelo braço, depois de pensar um pouco eu entendi , é por que sou péssima com mímicas, era para conduzi-la pelo braço, mas por quê? Então ele já perdendo a paciência por total, fechou os olhos com força e depois abriu, se expressando de forma que eu lesse seus lábios: - Ela é cega!!!!!! Putz!! Era por isso que ela não veio atrás de mim, claro, a coitada nem sabia de onde eu tinha vindo como ia saber para onde eu tinha ido depois de intimá-la a mudar de cadeira!!! E é claro que o marido era um cavalheiro, como ele poderia largar a mulher em frente ao salão, ela era cega!  E sim, claro que o Ronaldo pegou em suas mãos, para ela perceber sua presença! Dã. Uma coisa é certa e quem me conhece sabe muito bem eu sou a pessoas mais desligada que existe, e em meio a uma grande confusão de barulho, pessoas falando, todas juntas eu fico completamente enlouquecida e foi isso o que aconteceu, eu não estava sacando nada, só queria colocar a cliente na maldita cadeira e me sentar para tomar um cafezinho!!! Mas ela era um amor , quando percebeu a confusão, e ela percebeu logo, é uma mulher de grande sensibilidade e inteligência, passei a amar esta cliente, e depois que o Ronaldo morreu, ela não me largou mais, até eu parar de vez de trabalhar!Saudades!Saudades
Simone Mottola
Enviado por Simone Mottola em 07/11/2007
Código do texto: T727392

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Sobre a autora
Simone Mottola
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
193 textos (21056 leituras)
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Simone Mottola