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Médica de Família

                                         
   MÉDICA DE FAMÍLIA

Não mando mais tantos e-mails, mas tento mandar bem é no trabalho. Tenho tido que ser alopata. As pessoas fazem melhoras como se o remédio fosse uma benção homeopatizada. Adoram remédio de graça do posto. Adoram o Posto. Vivem numa carência imensa em que vivem. Devem me achar bem diferente, mas o ideal para eles pois sou o seu possível.
Eu sofro muita pressão pela produtividade preconizada de 500 pacientes ao mês. Faço visitas domiciliares e invento programas comunitários, campanhas educativas e dias comemorativos. Preciso compreender as suas demandas sociais, representações junto as instituições públicas de benefícios e pensões para complementar suas rendas familiares. Na Equipe da Saúde de Família não tem psicólogo nem Assistente Social.
Sempre sou examinada em minhas condutas por pressão da população sofredora, sempre doente e que exige atendimento imediatista e superficial para o seu alívio existencial. Mesmo que a gente explique que a avaliação deve ser integral e que ali não é Pronto atendimento não adianta, para eles serve a prescrição sintomática, a nebulização e o curativo.
Querem ser consultados diariamente. Querem ir ao posto comer biscoito, refrescar-se com o ar-condicionado, atualizar fofocas do bairro, conversar como se ali fosse o Posto de Saúde (da sua) Família. Existe pressão política por um lado e do outro pressão popular das associações de bairro. A Secretaria de Saúde e o Prefeito monitoram aprovação pela Ouvidoria e a equipe fica entre a cruz e a caldeirinha todo o tempo.
É uma loucura, tem hora. Puericultura, Pediatria, Hipertensão, diabetes, Ambulatório preventivos, pré-natal, urgências, produção, produção e produção.
A enfermeira, auxiliares gerais, técnicas, agentes e recepcionistas têm que ficar me dando tudo nas mãos senão eu choro. Fazem a triagem, pesagem, rodizio dos prontuários com resultados atualizados e solicitados para adiantar o atendimento pois não sobraria tempo para toda a cobertura.
As visitas domiciliares me encantam. Respirar fundo lá para fora do Módulo, que não raro, só tem uma porta sufocante.
Levo para estas visitas meu pozinho de pirlimpimpim e pulverizo dentro de seus corações, leitos e condições.
Deixo minha história quieta até quase esquecer o meu eu. Pareço estar num filme, só que real, com cheiro de fogão a lenha, suor, falta de sorte e de dente, com barulhos ora de hinos crentes, sinos, louvores e tambores. Mesmo sem um diretor artístico, sem uma estética romântica mas com muito realismo temos os extremos de violência do enteado baleando o companheiro de sua mãe e a delicadeza inocente da jovem de 19 anos em sua quarta gestação com o 5º filho a caminho e nenhum pai para sustenta-los pois eram traficantes e foram mortos pela policia ou por outros bandidos. Ela quis engravidar antes de aceitar a laqueadura pois desejava ter uma menina.
Sarna, piolho e tuberculose. Já fizeram esta música mas para entender o conteúdo só trabalhando num PSF.
Numa rotina que exclui os métodos programados de qualidade integral e modelos coletivos da atenção básica de saúde vamos seguindo a inclusão e acolhimento necessários aos “clientes”.

Marise Cardoso Lomba
Enviado por Marise Cardoso Lomba em 17/11/2005
Reeditado em 08/09/2020
Código do texto: T72952
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Marise Cardoso Lomba
Resende - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
43 textos (2708 leituras)
1 e-livros (43 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/20 00:20)
Marise Cardoso Lomba