Hierarquia do perdão

Hoje pela manhã um amigo me mandou um podcast de um psiquiatra que dizia com argumentos rasos e desconexos que o autoperdão não existe. Segundo ele, o perdão pressupõe uma espécie de hierarquia em que a “pessoa um” detém o “poder” de perdoar enquanto a “pessoa dois” detém o “dever” de pedir perdão, de modo que o perdão não pode existir sem que haja um pedido.

Talvez ele tenha razão. Talvez sua teoria seja tão profunda que eu não a compreenda, pode ser que eu tenha ficado no raso, mas cá pra nós, não me fez o menor sentido.

Veja bem, há uma frase - cuja autoria é atribuída a muita gente - que diz que “Guardar ressentimentos é como beber um copo de veneno e esperar que a outra pessoa morra”. De fato, é cientificamente comprovado que a mágoa é patológica. Muitas doenças psicossomáticas estão associadas ao acúmulo de maus sentimentos, como ódio, rancor, raiva e tristeza por exemplo. Há pessoas que desenvolvem depressão, úlcera, gastrite, taquicardia e muito mais, devido à dificuldade em lidar com algo totalmente subjetivo como a falta de capacidade de perdoar ou se livrar da culpa.

Se partirmos da premissa do psiquiatra em questão, o autoperdão não existe, pois uma mesma pessoa não pode ser réu e juiz de si mesmo, não havendo que se falar em “perdoar-se a si mesmo”.

Se não se pode perdoar-se a si mesmo, também não é possível ao homem amar-se a si mesmo ou atribuir-se qualquer outra coisa, já que estaria ocupando duas posições opostas ao mesmo tempo. Uma loucura total! Algo sem pé nem cabeça, sem lógica alguma ao meu ponto de vista.

A quem é cristão é difícil assimilar essa lógica da hierarquia do perdão, porque Jesus não a mencionou em momento algum, ou pelo menos não está escrito em nenhum evangelho que é necessário que a pessoa lhe peça perdão para que você a perdoe setenta vezes sete. Ele apenas diz que devemos: “Perdoar setenta vezes sete”, sem nenhuma condição.

Eu compreendo que o perdão não isenta ninguém de errar, não autoriza nossos algozes à reincidência e muito menos nos livra da possibilidade de sermos novamente ofendidos. O perdão que eu dou livremente a alguém é para que eu mesma não adoeça. Simplesmente isso!

Eu não vou perdoar fulano para que ele se sinta o bonzão, o fodão, o superior e muito menos para que se sinta no direito de repetir o que fez de errado, isso aí é com ele e não comigo. Eu perdoo fulano para que o veneno da mágoa não me cause um câncer, para que o veneno da raiva não me corroa os nervos e nem me mate do coração.

Perdão não é bônus para algoz nenhum. Perdão é remédio para mim e é por isso que eu vou distribuí-lo gratuitamente, sem que ninguém me peça, sempre que eu puder e tiver condições, porque Deus me livre de dar a alguém o gostinho de me matar de raiva. Eu quero morrer feliz! Sai pra lá, veneno!

E quanto ao autoperdão, ele é psicologicamente necessário. Há faltas graves que cometemos com ninguém menos do que nós mesmos e, se nos ferimos, precisamos cuidar de nós. Se maltrato meu corpo é a mim mesma que devo perdoar. Se me arrependo de algo que fiz é a mim mesma que devo satisfações e eu preciso sim, tantas e tantas vezes me perdoar, para ser capaz de me reerguer e seguir adiante. Não há que se falar em hierarquia do perdão quanto o assunto sou eu mesma. Não tem juiz e nem réu. Sou eu e eu. Pronto. E se não sou capaz de acolher minha dor e minha culpa e perdoá-la, como serei capaz de perdoar os outros?

Se não existisse autoperdão, doutor psiquiatra renomado, nenhum de nós existiria, porque o fardo é pesado e ninguém é suficientemente imaculado para não pecar contra si mesmo vez ou outra na vida. Haveria muito mais gente no seu consultório, muito mais gente cometendo suicídio, muito mais gente mecanicamente medicada. Quero acreditar que seu argumento não seja mero interesse mercenário. Oremos.

Cyntia Pinheiro
Enviado por Cyntia Pinheiro em 25/11/2021
Código do texto: T7393717
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