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Preconceituosa, eu?

                     
                   Ando cada vez mais no limiar da boa educação, com vontade de fazer o que o Rei da Espanha fez com o Presidente Hugo Chávez, um cale a boca com elegância. Várias “coisinhas” me irritam: quem tem mania de fazer aspas com os dedinhos quando diz uma ironia, por exemplo, e julga que o ouvinte é retardado. Neste caso, não há dedinho que o faça captar a ironia! Outra coisa chata, jargão de ambientes que eu freqüento, é a expressão “agregar valor”. Que valor esta expressão ainda pode agregar?

                    São preconceitos, eu sei. A mulher que anda permanentemente com uma garrafa de água para cima e para baixo e beberica a cada segundo é uma chata. Também o é quem convida para um almoço de negócios, coloca duas folhas de alface no prato e alega estar de dieta. O que fazer? Embarcar no delírio dietético do outro e matar a fome depois?
 
                    Um dos maiores indícios de babaquice é quem não sabe da missa nem a metade e desanda a concluir e tecer considerações superficiais sobre um assunto, esquecendo que toda história tem pelo menos dois lados... E o que dizer dos que abusam da expressão “a nível de”? Do gerúndio nem falo: a antipatia virou unanimidade. São detestáveis “chegar junto”, “superar limites”, bobagens que lembram papo de concorrente ou conversa de bróders na praia.

                    Essa rotulagem imediata é mania que se adquire pela vida e que explica antipatias gratuitas logo de saída. Flanelinhas me despertam ímpetos homicidas. Tenho raiva menor do assaltante do que do cara que fica na frente do meu carro, como se tivesse comprado a rua e pudesse me cobrar pela vaga. Pior são os que cobram antecipadamente, no entorno de casas de espetáculo, como se não percebêssemos a chantagem – cobra para não furar um pneu ou riscar o meu carro.

                     Outra coisa chata é gente que tem o médico ( dentista, analista, decorador, nutricionista ) melhor do mundo e diz “Você TEM que conhecer o meu!”. Tem quem não fuma mais e paga sermão sempre que vê um fumante... Sou ex-fumante: alertar uma vez é sinal de consideração, insistir todo o tempo é pura chatice! E tem aqueles a quem você conta um caso inusitado e a resposta se engatilha “Isto não é nada! Você precisa ver o que aconteceu comigo!”. Há os que tocam, cutucam, puxam a manga da blusa para reforçar um argumento ou chamar sua atenção.  A previsibilidade é tão burra e chata!

                     Tenho um tio solteirão que sempre que me encontra conta  as desgraças que leu nos jornais. Deve fazer estoque, esquecendo-se que, da última vez deixei, de novo, sutilmente claro que odeio papo de violência. Outro tio solteirão, hipocondríaco, é amigo do balconista da farmácia e sempre passa para uma visitinha: “E aí?  Chegou novidade da Bayer?”  Meus sais, por favor!

                       Agora, pior do que tudo já dito é mulher que escreve crônica em plena TPM. Deveria haver uma lei federal que garantisse que, neste período, eu fosse amordaçada, algemada. Fico chata à enésima potência, admito! Se a lei estivesse em vigor, certamente você não leria esta crônica preconceituosa. Você teria mais sorte!
Maria Paula Alvim
Enviado por Maria Paula Alvim em 17/11/2007
Reeditado em 14/08/2008
Código do texto: T740463

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Sobre a autora
Maria Paula Alvim
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Maria Paula Alvim