OS POLÊMICOS POETAS DE LATRINA

Era no início da década dos anos oitenta, lecionava no Colégio Amado Bahia a disciplina Psicologia Social, nas turmas das 2as séries, do Curso Técnico em Administração.

O Colégio tinha como entidade mantenedora a Associação dos Funcionários do Comércio, localizada na rua do Tira Chapéu, em frente à Câmara Municipal da Cidade do Salvador. Essa entidade filantrópica prestava assistência médica e odontológica aos associados e ao corpo docente do colégio.

O Amado Bahia funcionava somente no turno vespertino, com os antigos cursos de 1o e 2o graus, atualmente ensino fundamental e médio. Havia também os cursos de Técnicos em Contabilidade e Administração. A maioria dos alunos morava na península Itapagipana. Esses estudantes eram filhos de famílias tradicionais com princípios conservadores. Quando se fazia uma “Reunião de Pais e Mestres”, a freqüência era integral.

O diretor do colégio era uma figura bastante conhecida na sociedade baiana como advogado. Uma figura que dificilmente aparecia no colégio. Ocupava cargo importante na Associação dos Funcionários do Comércio. Antes de ser diretor do estabelecimento, ocupou cargos importantes no governo do estado da Bahia. O corpo docente era representado por algumas pessoas de bastante conceito na sociedade, como: padre, advogados, médicos, empresários e professores de colégio renomado.

Todo final de ano havia formatura para os concluintes dos Cursos Técnico em Contabilidade e Administração. Eram formaturas realizadas com solenidades, na sede da Associação dos Funcionários do Comércio. Esses eventos eram lindos, com pombas, tendo a participação integral do corpo docente, administrativo e autoridades da sociedade baiana.

O prédio onde funcionava o colégio, à rua Domingos Rabelo, na Ribeira, pertencera no século passado à família Amado Bahia, daí o nome do colégio. Essa família doou o imóvel a Associação dos Funcionários do Comércio. A Associação, naquela época, tinha dois colégios e muitos imóveis alugados, nas localidades mais valorizadas de Salvador. O patrimônio da Associação era bastante significativo.

Quando iniciei as minhas atividades pedagógicas no referido estabelecimento, o prédio já havia sido tombado pelo Patrimônio Histórico. Era um prédio bonito e bem cuidado. Atualmente o imóvel está abandonado. A sua arquitetura é colonial. Os vidros das janelas eram de cristais decorados – importados de Portugal. Esses vidros foram substituídos por vidros comuns. O piso é de assoalho. Com móveis luxuosos de jacarandá. A capela, situada na lateral direita do prédio, tinha acesso tanto pelo lado de fora como do interior do imóvel. Na capela, há diversas imagens importadas de Portugal. Nela sempre se rezava missa na época do funcionamento do colégio.

No fundo do prédio principal tinha um chafariz de ferro fundido, sendo à base de formato circular, com um raio de aproximadamente 1 metro, superposto por dois cogumelos de diâmetro diferenciados, com altura de 150cm. Presumo que tenha sido importado de Portugal ou Inglaterra. Tinha um pelourinho de madeira exposto e desgastado pelo tempo. Mais tarde, infelizmente, fiquei sabendo que essa relíquia histórica foi serrada por alguém desavisado para servir de trave para os alunos jogarem futebol no fim de semana.

No segundo prédio, encontravam-se os sanitários femininos e masculinos dos alunos. Eram espaçosos, à moda antiga. Tinha paredes revestidas com azulejos brancos no sentido vertical, de baixo para cima, até a metade. O restante da parte superior da parede era pintado de branco.

Na parte superior das paredes dos sanitários masculinos era cheias de palavrões, propostas indecentes, frases e desenhos obscenos compreensíveis. Não havia paredes pichadas e sim inscrições que não feriam a gramática. Essas inscrições eram feitas a lápis de cores, carvão e até mesmo escritas com fezes!!! As paredes apresentavam um aspecto repugnante e transmitiam um odor insuportável. Desinfetavam-se diariamente. Aos sábados, fazia-se a limpeza ou pintavam as paredes. Permaneciam limpas até, o máximo, às terças-feiras.

Os professores e a direção começaram a fazer campanha para que os alunos conservassem as paredes limpas. No entanto, quanto mais se encarecia para a conservação da limpeza das paredes é que apareciam mais sujas e escritas. Era uma questão impossível impedir que alguns alunos

abandonassem o desejo irresistível e pretensioso de desenhar e escrever com veemência nas paredes dos sanitários.

Em uma reunião de coordenação pedagógica, o professor de Educação Moral e Cívica, professor Mário, abordou a seguinte sugestão:

- Sugiro à direção que se mande pintar e afixar nas paredes dos sanitários masculinas, lousas com giz e apagador, a fim de que os alunos passem a escrever nas referidas lousas, em vez das paredes dos banheiros.

A professora de Biologia, Ana Rita, assim se expressou:

- Acho a idéia do professor Mário genial! Esta proposta me parece infalível. É necessário que não se deixe faltar o giz.

O professor Armando, da disciplina História, comentou:

- Como não temos outra sugestão, devemos aprovar a experiência e observamos os resultados. Caso contrário, tentaremos outros recursos.

A professora Marli, de Matemática, tomando a palavra assim contestou:

- Professor Mário, não me interprete mal. Não concordo com a sua sugestão. Acho uma decisão esquisita colocar lousa no sanitário. O lugar de lousa é em sala de aula e não em sanitário. Desse modo iremos motivar os alunos a escreverem mais palavrões. Devemos procurar outros mecanismos educacionais menos estranhos.

O professor de Educação Moral e Cívica, consertando os óculos de lentes grossas, olhando para a professora de Matemática, disse:

- Professora Marli, eu não acho esquisito se colocar lousa nos sanitários, nos corredores do estabelecimento, na área livre da escola ou em qualquer outro lugar do colégio. A lousa foi inventada para se escrever. No nosso caso, é para os alunos mudarem o hábito de escreverem nas paredes dos sanitários. As paredes dos banheiros masculinos apresentam um aspecto horrível. Vamos colocar as lousas nos banheiros e os alunos vão escrever o que eles desejarem. Não estamos motivando a escreverem palavrões. Esses palavrões que eles escrevem não prejudicam a ninguém. Pior do que escrever palavrões em banheiros é usar drogas, fazer uso de bebidas alcoólicas ou ser violento com os colegas. No caso das lousas, um vem e escreve um palavrão; outro vai e apaga esse palavrão e escreve outro. Esta sugestão, na verdade, não é minha. É de um dos nossos alunos. A do presidente do Centro Cívico Amado Bahia.

O professor Arlindo de Geografia ergueu as sobrancelhas, e com voz aguda disse:

- Pessoal! Até o momento, a única sugestão concreta foi à apresentada pelo professor Mário. É uma idéia de um dos nossos alunos, o Valdeir. O Valdeir é um aluno muito estimado e querido pelos colegas. Rapaz educado, inteligente, carismático e excelente aluno. Ele é expressão dos anseios dos estudantes deste colégio. Vamos aprender com ele. Mestre não é somente aquele que educa, mas aquele que aprende momentaneamente com as circunstâncias. Eu concordo com a sugestão de se colocar as lousas nos sanitários.

A professora Ana Rita com voz calma comenta:

-Não acho absurdo se colocar lousa nos sanitários. Não

acho absurdo que alguns dos nossos alunos escrevam nos sanitários. Alguns escrevem para exteriorizar suas frustrações, sentimentos ou recalques reprimidos. É uma forma de extravasar suas emoções reprimidas, nos agredindo com aquilo que lhes ensinamos, proibido ou imoral. Por isso sou favorável à colocação das lousas nos

banheiros para escreverem o que desejarem.

O professor Armando, olhando para os professores Mário e Roberto, ambos de Educação Física, disse:

-Estes dois colegas estão de parabéns pelo trabalho

que vêm desempenhando com os estudantes neste estabelecimento. Eles têm estimulado gincanas relacionando as tarefas com os conteúdos da aprendizagem de diversas disciplinas, feiras de ciências, murais, exposições, passeios, visitas a orfanatos e a asilos. Observo que acolhem os alunos com entusiasmo, passam-lhes mensagens de otimismo, etc. Promovem atividades como peças teatrais, concursos de poesias e frases educativas, paródias, etc. Este tipo de trabalho, feito por estes dois colegas, teve como conseqüência o desaparecimento de carteiras riscadas, paredes das salas rabiscadas, pias entupidas dos sanitários e vidros das janelas quebradas ou livros da biblioteca rasgados propositadamente. Graças ao trabalho dos dois junto aos alunos, não há violência contra o patrimônio material da nossa escola. Diante do exposto, acatando a idéia do nosso aluno Valdeir, apresentada pelo professor Mário, concordo em colocar as lousas nos sanitários masculinos.

O professor Roberto, sorrindo disse para o professor Armando:

- Obrigado colega, pelas suas palavras. Não merecemos tanto!... É nossa obrigação! Quanto às expressões de violência por escrito – eu aprendi na Universidade que os estudantes, com freqüência, expressam seus sentimentos, desejos e intenções em seus desenhos, relatos, poemas e outras formas de expressão escrita. É verdade que muitos adolescentes produzem trabalhos sobre temas violentos que, na maioria das vezes, são inócuos quando considerados no contexto. Contudo, uma representação exagerada de violência por escrito, ou através de desenhos, dirigida a indivíduos específicos – colegas, professores, funcionários, administradores e outros – pode assinalar problemas emocionais e potencial de violência. No entanto, para esse tipos de comportamento, o diagnóstico só deve ser feito e

avaliado por um profissional experiente e qualificado em saúde mental. Somente pessoa treinada é capaz de determinar o real significado deste material. Acho que não devemos demonstrar aos alunos insatisfação com as palavras obscenas escritas nos sanitários ou que estamos usando mecanismos para impedir a escreverem nos banheiros. Em suma, sou favorável à colocação das lousas nos sanitários.

A coordenadora pedagógica, professora Gracinda, manifestou-se dizendo:

- Diante da explanação dos senhores, compete-me submeter à proposta a votação deste conselho.

A proposta foi submetida à apreciação de todos e foi aprovada.

A direção da escola acatou a idéia e tratou de imediato de tomar as providências necessárias, conforme se determinou em reunião. As paredes dos banheiros masculinos foram pintadas de azul celeste e foram colocadas duas lousas.

No final da tarde após o término do expediente, no primeiro dia em que foram instaladas as lousas nos banheiros masculinos, encontrei o professor Armando e o professor-estagiário Reginaldo, de História. Reginaldo era um jovem bastante esforçado, com seus vinte anos de idade. Gesticulava bastante quando falava rápido, e suas palavras eram bem explicadas. Cursava Licenciatura em História, na Universidade Católica do Salvador. Tinha apenas alguns meses regendo classe. O estagiário nos disse:

- O sanitário dos professores estava ocupado e então eu tive que ir aos sanitários dos alunos. Acabei de sair dos sanitários dos alunos e notei que as lousas foram bastante usadas. No entanto, em ambas havia frases escritas com letras maiúsculas de tamanho grande em relação à lousa, símbolo e sigla do Partido Comunista. Na primeira lousa, ao lado direito da porta de quem entre nos banheiros, há a seguinte de inscrição: “Punheteiros de todo o Amado Bahia, uni-vos e mãos à obra”, como também a sigla e símbolo do PC. Na segunda lousa consta a frase: “Aqui se caga. Aqui se paga”.

O professor Armando, regente da disciplina História, balançando a cabeça e sorrindo sem graça, dando a entender que não desejava opinar a respeito das expressões sanitárias, permaneceu um instante em silêncio e disse ao estagiário:

-Desculpe-me professor. Até o momento não me

preocupa essas expressões de sanitários. O senhor tem tempo para isso!... Não me leve por mal. Estou brincando com você. Eu acho essas expressões escritas nas lousas dos banheiros seja uma maneira desses adolescentes exteriorizarem suas frustrações. Note bem, Reginaldo: Se desprezarmos o sentido literal da frase que consta na primeira lousa, notaremos a influência do pensamento filosófico marxista: “Operários de todo o mundo, uni-vos...” Como também, o símbolo e a sigla do PC. São expressões consideradas subversivas no atual regime político. É uma forma desses jovens protestarem contra o proibido, sem serem punidos pelo atual regime político. A frase da segunda lousa alguém parodiou de um adágio popular: “Aqui se faz. Aqui se paga”.

No dia seguinte, após o expediente, em virtude dos sanitários dos professores estarem ocupados, tive a necessidade de ir aos sanitários dos alunos e, lá, notei que aquelas frases já haviam sido apagadas em ambas as lousas. Havia novas frases: “Aqui não há valente que não se cague”. Na outra: “Estou de Saco Cheio - Assinado Dr. Pênis”. “Paulino metido a gostoso não come ninguém. Só come a mão”. E muitos outros palavrões que não são dignos de registros, devido a sua natureza criativa ser primitiva. O interessante é que os alunos deixaram de escrever nas paredes e começaram a usar as lousas. Funcionava da maneira como o presidente do Centro Cívico e o professor Mário haviam previsto. Um vinha e escrevia um palavrão, desenho ou frase obscena; outra ia apagava e escrevia uma outra frase ou desenho imoral, e assim mantinham a prática de escreverem no sanitário sem sujar as paredes. Em uma das lousas um dos alunos escreveu as seguintes estrofes:

* “Cagar! Só na latrina!...

Aqui! Todo valente se caga!

Ai! Quem me dera!

Se aqui também!

Cagassem as meninas...

Ai! Que triste sorte!

Ai! Que triste sina!...

Ai! Que triste destino!...

É ser Poeta de Latrina.

PT. Saudações e Recomendações a

Família...”

Passada algumas semanas apareceu na outra lousa do sanitário uma réplica poética sanitária:

* “A você que é poeta de latrina,

Que não tem muita inspiração.

Deixe de viver esta triste sina,

De bater punheta que é ilusão...

Vive pensando que está fudendo,

Mas está com a pica na mão!

PT. Saudações Cara.”

Os alunos comentavam entre si, riam e apontavam uns para os outros, desejando conhecer os Poetas de Latrina. Não apagaram a literatura sanitária. Ficou exposta no sanitário por um longo período. Até hoje se procura os polêmicos autores dos “Poetas de Latrina”.

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Obs: * No final do século passado os alunos escreviam nos sanitários uma linguagem compreensível porque sabiam escrever. Infelizmente, nos dias de hoje, apenas rabiscam paredes dos sanitários ou picham muros ou paredes externas de imóveis com mensagens produzidas pelo inconsciente, porque não sabem escrever...

* Não costumo e não gosto de escrever ou proferir palavrões ou frases obscenas. Infelizmente fui obrigado a escrevê-las, contra a minha vontade, com o intuito de dar autenticidade ao texto e afirmar com fidelidade a veracidade do fato ocorrido naquela época..

EVERALDO CERQUEIRA
Enviado por EVERALDO CERQUEIRA em 25/11/2007
Código do texto: T752199