A POESIA CONTEMPORÂNEA É IRRELEVANTE

"Entendo que a poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor de cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem SE entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é mesmo um ser a mercê de inspirações fáceis, dóceis às modas e compromissos"

Carlos Drummond de Andrade

No senso-comum, a poesia é “versinho-de-amor-ou-de-dor-de-cotovelo”, e/ou, pura e simplesmente, qualquer texto lamecha quebrado em versos com rimas ao final.

A visão romantizada do exercício sugere uma falsa facilidade e termina por afastá-lo do grande público. A maciça maioria das produções online não foge à redoma de escritores/entusiastas escrevendo para outros escritores/entusiastas, numa troca frenética de leituras desatentas e comentários genéricos.

A Poesia, essa de P maiúsculo, cujo manuseio racional das emoções é a essência (o poeta é um fingidor, afinal), na internet, perdeu-se quase por completo.

Poesia, do qual o produto final seja o poema (palavras dispostas no papel), é um trabalho de condensação dos variados sentidos, através da construção rítmica-psicológica visando a potencialização da linguagem; a palavra carregada ao seu máximo grau de significação. E o que deveria ser o seu cerne, hoje, parece um detalhe menor, muitas vezes preterido pelo sentimentalismo barato, narcísico; a ideia de "mensagem positiva", aos moldes mesmo das lições morais das fábulas. Por isso a irrelevância diante do público leitor: uma escrita sem filtro, fruto apenas do fluxo espontâneo (a famigerada inspiração), tem valor apenas para o próprio autor. Pode encontrar respaldo em terceiros, vez ou outra, bem verdade, mas não passa de uma identificação momentânea, nunca sobrevivendo a uma segunda passada de olhos.

O resultado é uma produção desenfreada, de nenhum senso-crítico, sendo empilhada em blogs/redes sociais, com pouco ou nenhum retorno, porque o interesse real na Poesia sucumbiu. Ser poeta tornou-se, seja lá por qual motivo, cult. E mantendo aspectos da sociedade pós-moderna, e da dinâmica das redes sociais, arranha apenas a superfície.

Lusca Luiz da Silva
Enviado por Lusca Luiz da Silva em 01/07/2022
Reeditado em 05/07/2022
Código do texto: T7550122
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