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Angra dos Reis

Eu e um colega de trabalho contratamos uma agência de viagens para realizar um passeio em Angra por um dia inteiro de barco. A programação incluía o transporte até o barco, depois a volta até o hotel, rodízio de frutas durante o passeio, vários intervalos para mergulho e almoço numa das ilhas.

Saímos tri empolgados. Éramos os únicos brasileiros da van. Os gringos que ali estavam pareciam umas gralhas. Não calavam a boca um só minuto. Tudo era motivo de palmas, até mesmo quando um caminhão se atravessou na frente da van e quase nos matou. Eles acharam o máximo, bateram muitas palmas. Eu fiquei sem entender o porquê, mas tudo bem. Vai ver acharam que aquilo era uma apresentação da agência de como era um acidente de trânsito no Brasil.

Outra coisa engraçada foi o guia apresentar uma plantação de mandioca. Fiquei com um ponto de interrogação na testa. Imaginei de cara: "Bei"! Lá em Caçapava tá cheio de pontos turísticos então, tem até maconha no meio das mandiocas. Muito mais legal.

Chegando ao barco, me senti uma milionária. Tá certo que milionários ficam sozinhos num barco daquele tamanho, mas o “faz-de-conta” é meu e eu imagino o que eu quiser ora bolas. Tinha uma música bem animada, garçons passando com fatias de melancia, fatias de abacaxi, enfim um “chicume” só. Depois eles passavam bebidas extremamente geladas, mas essas a gente tinha que pagar uns R$ 10,00 por uns golinhos e poderia beber tranqüilamente. Como estava naquele lugar, com aquele sol e aquele vidão, achei os R$ 10,00 troco diante daquilo tudo que estava vivendo. O tal do valor agregado.

Paramos para mergulhar, os peixes lindos dos mais variados tipos, de cinco em cinco minutos lembrava que o meu marido e meu filho iriam adorar estar ali comigo. Meu colega foi fazer a volta na ilha mergulhando e o barco começou a buzinar para irmos embora. Eu fiquei para trás esperando o vivente que mergulhava calmamente analisando os peixes como se nada estivesse acontecendo. E eu lá, na beira da praia bolando uma forma de buscá-lo antes de o barco partir. Sorte que ele deu uma espiada pra fora d´água e eu fiz gestos de “turista desesperada porque o barco está partindo” e ele se antenou de sair da água.

Outra coisa brabíssima foi explicar que éramos colegas de trabalho num passeio daqueles. No mínimo umas quatro pessoas se ofereceram para tirar fotos nossas juntos porque ficavam com pena de ver um “casal” separado tirando foto um do outro. E a gente passou o tempo todo dizendo:
- Não obrigado! Somos colegas e não somos casados! Somos casados, mas com nossos respectivos cônjuges. E bláblábláblá...

Um cearense malicioso e (não posso deixar de contar) “de sunga vermelha” e com um correntão de prata no pescoço, que se ele caísse no mar morria afogado com o peso daquilo, disse:
- Sei, são colegas de trabalho passeando de barco em Angra no meio da semana. Entendo...

E eu que estava mais preocupada em tomar meu banho de sol em paz respondi:
- Sério! Estamos aqui a trabalho, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Como não poderíamos entrar no Congresso hoje, resolvemos passear de barco.

E o maldito cearense da sunga vermelha insistia:
- Teu marido sabe que tu ta aqui?

E eu:
- Sabe! Liguei e debochei da cara dele porque ele está no escritório no mesmo momento que eu estou tomando caipirinha olhando para as ilhas de Angra dos Reis às 15 horas da tarde numa quinta-feira.

E ele:
- Eu se fosse teu marido não deixava

E eu:
- Bom, graças a Deus tu não é meu marido.

Enquanto isso outro casal compadecido daquela cena da qual não escutaram nosso diálogo, aproximou-se e um deles disse:
- Hei, se vocês quiserem eu posso tirar uma foto de vocês.

E eu:
- Não, eu estou sozinha, esse senhor só está aqui conversando comigo e ...

Parei, pensei e concluí que aquela explicação iria longe. Na real ninguém pode ver uma mulher sozinha que acha que ela deve ter um marido obrigatoriamente no barco ou é sapatão ou é uma puta caçando homem. E eu lá, só querendo dormir um pouquinho no sol levemente bêbada, sem precisar explicar para ninguém que eu não queria tirar foto acompanhada de ninguém.

Pôxa! Estou a trabalho sem meu marido, me deixem em paz!

Ainda bem que encontrei duas senhoras caindo de bêbadas que eram de Londres, praticamente atirando-se do barco de tanta caipirinha, que tornaram o resto do meu dia extremamente divertido, apesar do meu inglês estar terrivelmente enferrujado. Não quiseram me juntar com ninguém para tirar uma foto, não me perguntaram por que eu estava sozinha e não eram lésbicas, pelo menos até onde eu sei, elas não me cantaram. Mas como eu disse anteriormente, sei lá, meu inglês tá realmente muito enferrujado, de repente fui eu que não entendi. Sabe como é... Mulheres sozinhas num barco... Não sei não.
Renata Miranda
Enviado por Renata Miranda em 28/11/2007
Código do texto: T756435

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Sobre a autora
Renata Miranda
Caçapava do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, 37 anos
44 textos (10965 leituras)
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Renata Miranda