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De repente

     ...Encontramos-nos numa galeria de agosto na fotografia. As marcas inteligentes da nossa alegria foram visíveis em nosso filme de agora. O filme da hipnótica aurora porque nos encontramos em pleno espaço sem saber onde estávamos há tanto tempo.  Dissemos: “não vamos embora, é cedo...” E ficamos zombando do número no vidro de alfazema da vitrina. Você subiu no carro e depois, muito depois, descobriu que estávamos numa data comemorativa. Que aquele instante era histórico e vasto de nossa felicidade. Passamos então a verificar a vitral aparência da noite. Verificamos a aparência noturna e nela havia só agradecimento, bondade e beleza. Nossas mãos unidas pediam a brincadeira de rodar, rodar e rodar. Nossas roupas de parque e nossa alma de eterno fim de semana pediam o ritmo das canções românticas. Nossos passos jamais corriam e pedimos ao dono do lugar para dançar. Ali mesmo.  E dançamos com o som no volume exato da emoção.  Nossos olhos perdoavam o tempo em que o amor nunca faltava, jamais faltava, nunca escasseava. O carro depois apareceu e buzinou para nos fazer rir, buzinou  como trompa de caça. Na porta você já me sabia sem adeus. O que aconteceu? Se naquela noite até a sombra da aurora se esqueceu do dia para que não amanhecesse!  Madrugava para nunca quebrar o sublime ninado do sonho com um simples bom-dia. Havia tudo. Amar foi toda a nossa riqueza.
      Havia cantores, flores e perfumes. Calmaria dos loucos que viam em nosso amor o que dele se bastava. Nossa loucura  de amantes varridos pela maresia do sal. O sal de nossas bocas sedadas pelo prazer de beijar e nos beijávamos sobre a espetacular expressão lunar do silêncio.  Nosso lugar era simples, tudo tão simples. Nada era vago.  Nada carecia de explicação. Todos os desejos eram saciados. Brotava uma ilusão nova e constante que reluzia como dois trilhos indo rebrilhar no sul do horizonte.  Você fazia de tudo um palácio. De um lingote de giz um pedaço de ouro. Diz-me: o que aconteceu? O que aconteceu?  Para onde você foi? Em que dia se perdeu? Diga agora baixinho novamente o que aconteceu... Qual caminho? Qual rua adormeceu sem rumo? Por onde você se perdeu? Qual exílio?  Diga novamente teatral no espelho do brechó. O velho brechó das traças e riquezas. Brincando para ser encontrada num sonho de agosto graças à velocidade do vento. Vento a tocar os cabelos na viajem pelo mar. Vento sensível, vento abstrato, mudo e sensual como os sais de prata no fenômeno do retrato. Na pura escuridão e seus efeitos.
     Pudesse saber que só agora ainda tarde eu havia revirado o homem taciturno que sobrou rebrotado  na talagada de conhaque de repente. De repente.
         

Tércio Ricardo Kneip
Enviado por Tércio Ricardo Kneip em 28/11/2007
Reeditado em 29/10/2010
Código do texto: T756899
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Tércio Ricardo Kneip
Santa Vitória do Palmar - Rio Grande do Sul - Brasil, 55 anos
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