ONDAS SEM MARULHO

Em 1971, durante a epidemia de meningite que os militares capricharam tanto para esconder, minha história de vida foi radicalmente alterada com a perda da audição. O que se seguiu foi um longo processo, ainda em andamento, de adaptações, busca de soluções, restrições e muita paciência. Eu queria ter a tal de vida “normal” e não sabia ainda que a normose não define a inquieta dinâmica da existência. Tive que esperar até o ano de 2005, quando o João nasceu, para fazer uma releitura do que é normalidade.

A minha vida já foi uma lista de coisas a fazer. Metas a atingir com estudo e trabalho. Eu usava meu tempo para alcançar objetivo por objetivo, inundada de frases motivacionais sobre não desistir, caminhar mais uma milha, confiar e orar. Eu tinha rumo na vida. Claro que eu já sabia que o tempo não para e seu desfecho é igual para todos, mas era um conhecimento, digamos assim, teórico e literário. Precisei gerar uma vida para tocar a essência do inevitável. A maternidade acrescentou mais dois itens na lista: o tempo e a morte. Pois deixamos de contar o tempo e passamos a viver no tempo. Presentes. Prontos. Queremos estar nele e para isso precisamos não morrer. A vida ganha outro sentido, fica mais preciosa, urge e ruge. Filho, este produto da vida, que nos lembra da nossa vindoura morte, é feito antes de eternidade do que dos óvulos e espermatozoides.

Gostaria de ter sentido emoções fortes, epifanias, revelações, bombásticos insights. Algumas dizem que é assim, que há uma melodia solta no ar para quem gera e amamenta. Não me foi concedida esse nirvana de neurotransmissores felizes. O meu sentir não sofreu nenhum solavanco. Talvez isso tudo esteja diluído em mim como o sal no mar. Só sei que continuei a mesma de sempre, apenas mais consciente de que o mundo interage com minha cria de formas imprevistas. No hospital, senti pela primeira vez o impulso de arrebatar minha trouxinha e correr para longe de tudo. As pessoas queriam pegar meu filho no colo! Eu me sentia apreensiva toda vez que ele se soltava de mim. Não distinguia entre amigo e inimigo. Quando ele voltava ao meu colo o mundo entrava novamente nos eixos.

E eu sou uma mãe surda que cria o filho sozinha. Isso me tira o benefício que me daria a visão de um companheiro. Preciso me apegar ainda mais ao que vejo e sei para ajustar meu curso. Por exemplo, tenho uma daquelas particularidades de surdo, o famoso “sotaque”. Já me perguntaram “n” vezes se sou paraguaia. Nunca ouvi um paraguaio falar, não tenho a mínima ideia do que seja isso. Pronuncio como aprendi durante meus sete primeiros anos de vida, quando a meningite ainda não tinha imposto seu tributo funesto aos meus nervos auditivos. Também falo alto às vezes, sem saber que estou fazendo isso. É complicado. A reação das pessoas me dá o feedback tanto de minha pronúncia quanto da altura de minha voz, e toda vez que é negativo, me sinto mal comigo mesma.

Mesmo assim seria comigo que o bebê iria absorver a língua materna. Reproduziria as minhas sequelas? Uma vez ele começou a tossir só porque me ouviu tossindo muito. Faria isso com a pronúncia? Resolvi não me preocupar, pois ele teria convivência com as demais pessoas. Tinha família e escola. Seria influenciado pela maioria. Esperava que acabasse falando como meus parentes, e vejam só a surpresa, ele fala com sotaque gaúcho. Não sei de onde ele tirou isso e também nunca ouvi a gauchada falar para saber exatamente como é esta maneira, mas não me preocupo. Assim como meu sotaque paraguaio, o sotaque gaúcho dele pode ser uma marca de individualidade.

Por duas vezes já aconteceu de meu filho me lançar um olhar fixo e brilhante em situações de ida ao comércio. Chegando em casa, perguntei o motivo. Eu tinha falado muito alto. Expliquei a ele que eu pensava estar falando em tom normal e ele entendeu. Agora me avisa sobre a altura que estou falando. Está me dando ferramentas para melhorar esse aspecto da minha surdez.

Ele confia em mim para resolver os problemas dele. Isso me encanta. Toda vez que ele me chama de mãe, eu tenho a sensação de paz que vem de estar onde é o meu lugar. Sou a mãe do João; poderia me definir de muitas maneiras, mas é esse meu principal diferencial.

Quando ele era bebê, comprei um joguinho de alfabetização e colei nas paredes do quarto dele. Letras numa parede, números na outra, sinais de acentuação no guarda-roupa. Todo dia repetia para ele o nome das letras e números. Ainda tenho na minha memória auditiva o eco da voz de minha primeira professora entoando o alfabeto junto com a classe. Não pretendia alfabetizá-lo. Queria apenas que ele encontrasse algo familiar quando entrasse na escola. Algo que viu em casa, em situações sem estresse, com a voz da mamãe ao fundo. Espero ter conseguido. Hoje ele é um aluno com facilidade em todas as matérias. E quase não estuda. Isso me incomoda um pouco. Mas quando o vejo aplicando conceitos de Física, por exemplo, contando o intervalo entre o trovão e o estrondo para calcular a distância, assistindo Dr. Stone e Manual do Mundo para aprender conceitos de Química; ou falando inglês quase perfeito como consequência do game Minecraft, me acalmo. Afinal, quantos de nós ainda lembram de tudo que aprenderam na escola? Talvez eu, inconscientemente, esteja projetando sobre ele a obrigação de ser genial, talvez não. Vou descobrir com o andar da carruagem.

A fase da aquisição da linguagem é uma das mais divertidas na criação de um filho. Todo mundo quer saber qual foi a primeira palavra que a criança disse e outras coisinhas mais. Perdi muito dessa fase. Mas sei qual foi a primeira palavra que ele disse. Foi “angu” e foi com dois meses de vida! Para falar ele foi precoce. Até hoje é precoce. Usa um vocabulário acima de sua faixa etária e conversa muito, especialmente em sala de aula, o que provoca alguns tumultos no relacionamento. Lembro-me de uma vez que ele me pediu para comprar suco de gato. Se a caixinha tem uma laranja estampada, é suco de laranja. Se tem um gato, é suco de gato. Mas era um achocolatado. Até descobrir do que ele estava falando passei por um micro infarto. Coisinhas assim eu pude colher e saborear. Me fazem sorrir até hoje, junto com as muitas fotografias que tirei para alimentar meu instinto de aquisição de memórias. Sabe Deus quantas outras eu perdi. Espero que, no momento final de minha vida, quando a retrospectiva passa diante dos olhos, eu possa rever e ouvir todas as outras fofurices desse tipo, e sorrir mais uma vez perante o pequeno milagre de testemunhar uma vidinha se fazendo gente.

Um detalhe inexplicável nesta criança é que, desde pequenino, fala comigo pausadamente. Mamãe é maa-mããee. Não foi influência do pessoal da casa. Aqui me atropelam mesmo. Ele simplesmente nasceu sabendo que tinha que falar diferente com a mãe surda. Com os amigos e família, ele fala na velocidade normal e quase não separa os lábios. Fico realmente intrigada para entender como ele sempre soube. Quem sabe alguma ligação mal estudada do ser que gera com o que é gerado explique isso. Mas não importa tanto assim saber como aconteceu. O que importa é que aconteceu e facilitou minha vida. Com as crianças alheias não tenho o nível de comunicação que sempre tive com meu pequenino. Talvez por isso sempre senti os bebês alheios como cansativos e o meu como interessante. Desculpem, outras mães, mas lá no fundo vocês também têm esse leve traço de narcisismo que eu sei.

Hoje ele tem 15 anos e, ao contrário do dito popular, quanto mais ele cresce mais fácil fica cuidar dele. Deixou de ser dependente. Lembro-me de uma vez que estava amamentando e senti muita sede. Pensei em levantar, beber água e voltar. Nesse momento, a clareza de que meu filho não tinha autonomia nem para tomar água sozinho, quanto mais para protestar pela interrupção, me atingiu com a força de uma tijolada. Ele era totalmente dependente. Eu tinha que prover tudo. Tinha que estar lá. Pelo tempo que ele precisasse. E fiquei. E me apavorei diante do tamanho da responsabilidade. Mas, de alguma forma, sobrevivi e pude vê-lo se tornar cada vez mais independente e autodeterminado. Mesmo porque nunca interferi demais nas escolhas dele. Fosse qual fosse, eu estaria aqui para assegurar proteção e restauração. Para ser a mãe dele. E, de todos os papéis que desempenhei na vida, nenhum outro tem o prazo tão longo e a determinação tão implacável.

Lembro-me de algumas vezes em que me senti inadequada para ele. Em geral, passava pela parte financeira, quando eu queria lhe dar brinquedos além do meu alcance monetário. Também passou pela parte da família, onde há desestruturação e conflitos que por vezes, explodem. Queria uma família perfeita para ele. Outras, pelas apresentações da escola, onde todos sabiam o que as crianças estavam cantando, menos eu. Em nome do meu filho queria ser ouvinte, rica e bem estruturada. Mas sou só a mãe dele. Ou acredito que Deus cometeu um erro, ou acredito que está escrevendo certo por linhas tortas. Pode ser que eu viva a vida inteira sem saber.

Serei sempre julgada com base na minha deficiência. Alguns vão ver uma mulher guerreira, outros uma inútil que só ocupa lugar no mundo e ainda teve o atrevimento de reproduzir a espécie. Aprendi que isso, como a tal normalidade, não depende de mim. Se eu não tivesse contraído meningite, seria a mesma pessoa, mas com escolhas mais diversificadas. O fato de ter esta limitação pesou nas minhas escolhas, mas pessoas sem limitações auditivas também fazem escolhas limitadas. Não foram expostos ao frio vento do mundo desde cedo para aprender a ser corajosos. O que poderiam ter feito com tanta disponibilidade de escolha nunca foi objeto de suas reflexões. É preciso estar do meu lado da vida para enxergar a multiplicidade de caminhos e saber que um tanto de ousadia mais uma certa disposição de dar a cara a tapa podem transformar uma trajetória.

No entanto, podendo voltar atrás no tempo, eu iria querer uma história de vida absolutamente igual, mesmo com meus erros de julgamento e consequentes arrependimentos. Pois esse caminho me levou a desempenhar um papel de valor imensurável para meu mundo interno. Me levou a ser a mãe do João. E está tudo certo.

Tangará da Serra, 06/03/2021.

Lucimara Vaz
Enviado por Lucimara Vaz em 02/08/2022
Código do texto: T7573378
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