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CURINGA NA TOCA DO COELHO

Após uma noite conturbada, não necessariamente perturbada, desperto-me ainda com olor de sexo, mesmo que eu não o pratique. Ainda com olhos de dúvida entre sonhos e realidade, deparo-me com uma linda mesa de café da manhã, em plena terça-feira. Percebi que algo diferente acontecia. Após a ração matinal, bastou um telefonema e se confirmavam minhas suspeitas.

Ao sair de casa, a única coisa em que reparei era que, sim, algumas folhas se prendiam ainda que secas e quase mortas a algumas árvores. Fazia zero grau. E elas resistiam. Escalei buracos na terra, montei em minhocas mecânicas e cheguei ao meu destino. Três pessoas atendiam. Três pessoas enquanto eu apenas necessitava uma. Assim que me cumprimentou a primeira, eu saudei e ao tentar seguir palavras ouvi "sente-se por favor, ela cuidará do seu...". Sentei-me e aguardei. Foi então que ele veio. Eu o cumprimentei e após sua resposta ao meu cumprimento, disse-me "sente-se por favor, ela cuidará do seu..." Após sentar-levantar, sentar-levantar, sento-me sabendo ser ela a terceira, assim que me levantarei somente mais uma vez.

Resolvido isso e despedindo-me com palavras cordiais e desejos de um bom dia, sigo meus passos para cruzar meu universo dentro de outra minhoca mecânica. Resulta que o metrô que me destina está em obras. Como sempre sem motivo para elas. Então começaram as percepções. Perguntei-me a função daquilo; perguntei-me se o metrô era para transportar ou apenas um motivo para gerar e manter o ciclo vicioso. Que será mais importante?

Então mudo de uma minhoca mecânica a um ônibus que pagamos para ser transportados como gado, felizes. Nesta segunda etapa da viagem, deparo-me com uma manifestação, em que umas trinta pessoas protegidas por uns trinta veículos de polícia caminhavam em uma das maiores avenidas da selva gritando por trabalho ou algo do gênero, mas nunca por liberdade. Ao tentar assimilar a cena vejo estacionados três Porsche, um ao lado do outro, cada um de um modelo. Se coincidência não sei dizer, mas do outro lado da rua havia um de outra geração, mais esportivo e talvez, rebelde.

Tentando entender a manifestação cujos gritos pareciam dizer "queremos seguir escravos!" e relacionando os carros, sentam-se ao meu lado duas mulheres. Tenho quase certeza de que eram de Brooklin N.Y. City, ou até mesmo do Alabama. Suas vestimentas diziam-me isso. Além de que, o diálogo que mantinham parecia confirmar minhas indagações sobre elas.
Uma dizia:
- Washing, washing, washing!
A outra respondia:
- Yeah, Yeah, Yeah!
E seguia o diálogo.
- Washing fuck, fuck washing!
- Yeah, fuck! Fuck! Yeah
- The man, baby. He doesn’t do nothing… washing!
- Yeah! The man, fuck!!!

Em minha parada, desço e sigo meu caminho. Chego a meu outro destino. Toco o interfone e dizem-me que, por favor, espere cinco minutos. Cinco minutos. Tinha que me manter em cima da calçada por cinco minutos. Decidido e forte, disse a mim mesmo "aguentarei". A passos lentos sobre a calçada, sirenes de carros policiais me despertam, olho para os lados e pessoas passam como se nada acontecesse. Saco outro cigarro. Ainda que com a mão fria e dura, consigo lhe manter. Olhando minhas mãos secas pelo frio, descubro atrás delas dois poodles amarrados pelo pescoço com uma espécie de corda negra e fina. Eles conduziam meu olhar à mão cansada de uma senhora que trazia em sua cabeça um gorro rosa estilo francês, que aos passos de seus pretos sapatos passam por mim e se aproximam de uma árvore. Sincronizadamente, os dois poodles param junto a esta árvore, levantam cada um sua perna, um a esquerda traseira e o outro a direita traseira, paralelos formando um ângulo de 48° e começam a mijar. Nunca havia, em toda esta vida, visto uma mijada tão sincronizada. E quando terminam, seguem conduzindo aquele ser humano pelo caminho deles.

Então uma buzina me faz levantar a cabeça, e as pessoas seguem passando, como se nada acontecesse. E em um ato de desespero, olhando ao entorno me deparo com um outdoor. À primeira vista, parecia-me uma cama grande e branca de desing. Ordenadas as idéias, vi que era um router ampliado, sobre ele estava a silhueta de uma mulher desnuda e de saltos em que se podia desfrutar seu contorno e suas linhas. Então veio-me a idéia formada da imagem oferecida. Ela parecia querer dizer às pessoas: "Compre este router, ele o ajudará a navegar rápido pelos lugares mais obscuros da rede, nas formas mais escondidas de sua mente. Sua rapidez e eficiência o ajudarão a encontrar prazer rápido para sua ejaculação precoce!"

Percebi que estavam chamando a todos de doentes e que ninguém queria enxergar. As pessoas seguiam passando como se nada acontecesse. E sem refletir, percebo que se passaram os cinco minutos. Corro ao interfone e chamo. E nesse tempo de espera, já com as mãos congeladas sustentando o cigarro que insistia em manter sua chama de esperança, percebo do outro lado da rua um lixeiro brigando com uma máquina para limpar toda a sujeira da sociedade e no caminhão de lixo estampado on tour "Tonnenboys". Pensei "Tonnenboys? What mother fuck is that?". Após esta frase de aculturização, senti já que parte de meu sistema é formatado.

Então se abre a porta que me leva a um ambiente quente. Ainda com mãos frias subo as escadas, sou recebido, comprimentamos e escuto "sente-se, por favor". Sentei-me, tirei o gorro e me fixei naquele quadro de origem oriental onde figuras de monstros e Deusas, decorado com caretas em tons vermelhos me prendem. E, sem tempo de discorrer por toda a imagem, abre-se a porta e a passos suaves me diz "aqui está". Levanto-me, sustento meu destino e, ainda com mãos frias, nos cumprimentamos. Com sorrisos programados desejamos um ao outro palavras de sorte, de feliz fim de ano, mas nunca de ano novo.

Saio daquele recinto com passos ritmados, sabendo que algo havia terminado. Que acabava de deixar para trás um tempo, como se houvera saído de um enterro, para poder comecar uma outra pergunta. Do caminho que me espera. Exausto e sem muitos pensamentos sigo, ainda passos ritmados, outro cigarro e mãos frias...

Passo em frente a uma floricultura. Não havia cores variadas. Somente verde e tocos de pinheiros para decoração natalina. As pessoas selecionavam os melhores tocos como selecionam tomates em uma feira. Mas o branco das etiquetas que levavam todas em si um código desenhado que era ,99 não me deixava desfrutar do verde. Percebi que era Natal e que ter uma hipoteca é estar vivo! Dou-me conta das oferendas de precos nas vitrines. E todas as lojas lhe pediam, encarecidamente, para que você mantivesse o sistema. Para que, assim, ele pudesse suprir-lhe com doses diárias de ansiedade. Como que lhe cochichavam ao ouvido "endivide-se e mantenha o sistema. Siga vivendo como se não existisse outra saída."

Aperto os passos, escalo outro buraco, monto em outra minhoca mecânica, tento relaxar-me, respiro fundo e olho para o lado. Uma senhora, com seus anos vividos lendo um jornal. Página vinte e três. Os temas se dividiam em quatro: uma parte comentava sobre uma tecnologia para o ano 2011, o futuro; abaixo um corpo desnudo feminino com suas características, as fantasias; na página ao lado a foto de um criminoso com a cara coberta e seu histórico escrito em tinta vermelha. Passado e presente mesmos naquelas folhas, somente a data, 27 de novembro de 2007.

Tento desviar minha atenção, olho à minha frente e me deparo com um sorriso. Reparo naquela máquina que parecia possuir um chip programado. Sempre que seu equipamento orgânico ocular detectava outro, ativava um mecanismo que o fazia mostrar os dentes.
Pareceu-me estranho, mas ele funcionava assim: mostra os dentes, esconde os dentes, mostra os dentes… E assim era.

E sentado a seu lado um adulto com um saco de jujubas coloridas e boca cheia de saliva me fez pensar que ainda terei um câncer.
E me entra na cabeça que a máquina madre ditará de forma bege nosso caminhar. Mas todos os fantoches cumprem com sua função dentro do baralho, cada um ocupa seu espaço. Tentam viver harmoniosamente dentro de suas limitações. Formatados e programados para que não vejam, segue-se mantendo os padrões, seguindo o jogo de cartas marcadas. Desesperado já, meio que a passos rápidos quase corridos, fujo dessa realidade tentando manter-me paralelo a tudo. Corro, entro em outro mundo meu, ligo minha terceira realidade. E sabe o que me passa então?
Lembro e vejo que ainda existe e temos que suportar o Orkut neste mundo.


"Ai, ai! Ai, ai! Vou chegar atrasado demais!"
(Coelho Branco)
Curinga Joker
Enviado por Curinga Joker em 30/11/2007
Reeditado em 08/04/2008
Código do texto: T759630

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Sobre o autor
Curinga Joker
Alemanha, 41 anos
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Curinga Joker