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Não....não podia conceber uma coisa daquelas !
 
E logo ela, a sua filha ? Impensável, aquilo !
 
Já há tempos desconfiava do comportamento dela. Trabalhava duro, o dia inteiro na labuta para dar o melhor à sua pequena, e....
 
Não, não imaginava tal situação....Só podia ser engano...
 
"Se minha esposa estivesse por aqui, ainda...", suspirava pelos cantos..."Seria muito melhor, bem mais fácil"....Mas o fato era que ele estava sozinho desta vez, e tinha que enfrentar a situação. A filha ficava trancada no quarto, horas a fio. Toda vez que ele adentrava, ela rapidamente se virava e escondia algo dele, disfarçava. Já via e ouvia tantas coisas parecidas pela TV, pelos amigos, pelos vizinhos....Ficava a imaginar o que sua filha poderia esconder dele. Não vinha nada à sua mente....
 
A não ser que....
....que ela estivesse.....
....estivesse.....
 
- Não !
 
Relutava sequer em pronunciar aquilo. Não tinha a menor idéia de como iria lidar com isso. Não era seu estilo, mas quando a via sair de casa para ir ao colégio, revistava seu quarto, procurando sabe-se lá o quê - que aliás, não queria encontrar...
 
...e não achava nada de estranho, de diferente...
Ah, mas que ela andava estranha, ah! Isso andava mesmo!
 
Foi quando naquela tarde de sábado, ele voltou para casa mais cedo, e notou que sua filha estava com visitas. Ela e suas amigas estavam de cochicho e risos, que cessaram bruscamente assim que ele abriu a porta. Ficou ainda mais desconfiado. Foi para a sala, e aguardou pacientemente que as colegas de sua filha saíssem do quarto. Ao irem embora, sua filha as acompanhou até o portão, e rapidamente ele entrou no quarto e vira algo em cima da escrivaninha...estava ali a possível causa de tanto mistério. Caminhava a passos hesitantes, com receio de encontrar o que não queria, mas que precisava ver com seus próprios olhos....Coração acelerado, respiração descompassada. Parou diante do móvel, e sentiu que alguém também se detia na porta do quarto. Olhou detidamente para a escrivaninha, girou nos calcanhares e viu sua filha ali, rosto lívido, um tanto embaraçada com a situação.
 
- Então, minha filha.....você....você.....você...
 
E ela, respirando profundamente, diz:
 
-Sim, pai. Não queria te contar agora. A mamãe sabia, e me dava total apoio. Nunca fomos tão próximos, não temos diálogo. Não sabia nem como conversaríamos a respeito....
 
- Mas...mas....minha filha.....
.....são lindos !!
 
E segurava uma daquelas folhas em suas mãos. Existiam muitos poemas escritos com a bela caligrafia de sua filha. Varreu com os olhos algumas páginas, e notava que ela tinha um estilo cativante de escrever!
 
E ele imaginava tanta coisa...menos que ela era uma talentosa escritora...uma poeta !
 
- Venha cá, minha querida....
 
E se abraçaram como nunca antes havia acontecido, e selaram aquele fortuito acontecimento com muitas lágrimas e risos, enquanto o pai contava à filha suas desconfianças.
 
O silêncio que os afastara por longos anos deu lugar ao diálogo habitual promovido pelas eloqüentes poesias que os unia, de agora em diante, como algo mais que apenas pai e filha - se tornaram verdadeiros amigos.
Marcio Roque
Enviado por Marcio Roque em 04/12/2007
Código do texto: T764995
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Sobre o autor
Marcio Roque
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Marcio Roque