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Vá pra Pátria que Traiu!

      - Não acredito! Roubaram meu som!

      A frase, que completa um ano de vida nesta semana, foi cuspida com raiva pelo curto espaço que sobrava entre meus dentes rangidos. Acabara de sair de um treinamento quando encontrei a porta do carro entreaberta. Ou melhor, gentilmente encostada, para ser mais claro. O buraco escancarado que adornava o painel cavava outro em minha carne. Mutilado e indefeso, percebi que a velocidade marginal sempre ultrapassa nossa esperança morosa. Estamos acostumados a escorregar nossos sonhos em câmera lenta, torcendo para que não polvilhem sal em nossos traumas de lesma. Somos fracos, sim. Ah, cagões, também.

      Naquele dia, a musicalidade que me fora raptada dos ouvidos não indignava. O que realmente nauseava minha garganta era o grito azedo, adulterado no tumulto de uma vida distorcida e preso como bolas de ferro aos pés. Exagero? Talvez seja essa depressão corrosiva que falte em nossas promessas coloridas. Lembra daquele vídeo com moscas sujas beliscando as pálpebras dos famintos recém-nascidos africanos? Viu? Você já está com os olhos encharcados de novo.

      Enquanto ligava o carro semi-nu, sabia que meu CD player estaria longe. Dissolvido em fino pó aristocrata, diluído em seringas de ponta irresistível ou até mesmo em sua solidez original, adornando alguma festa bandida. Playlist da noite: Funk dos Trouxas. Letra e música: povo brasileiro.

      As esferas dos semáforos que mapeavam aquela madrugada confundiam-se em minha tolerância. Exigia que todas pipocassem aquele amarelo enjoativo. Atenção! Atenção, Brasil! Você ainda não está pronto para seguir.

      Mas e se aquele mísero aparelho de som virasse comida? Talvez um pai de família, enforcado na incompreensão humanista, apenas buscasse alternativas imediatas para o estômago oco de seus filhos. Sim, é isso! Imagine os braços fracos aplaudindo a determinação arriscada do pai. Todos com as gargantas em túnel, aguardando a colherada de mistura da semana. Você é o nosso herói, papai!

      Outros poderiam dizer que o problema central é a falta de educação. Não aquela que inibe nossos instintos primatas à mesa, mas a que deveria ser ensinada nas escolas de isopor. 1-1=0. Pronto, já sei que roubar é errado, tia. Resolvi confirmar esta teoria. Naquela mesma noite, coloquei alguns livros no banco traseiro do carro. Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Mário Prata, Rubem Fonseca e mais alguns que julgava literariamente sedutores. A partir daquela data, o tecido automotivo serviria de vitrine para bandidos, estupradores, delinqüentes juvenis, malandros sazonais. A “educação”, tão justificável em nosso discurso paupérrimo, estamparia naquelas capas seu convite ao crime.

      Neste período, estacionei o carro propositalmente nos cantos mais inóspitos da cidade. Em pouco tempo, o faro para cenários marginais já afiava minhas narinas. Torcia para que jovens equilibristas de imundas bolinhas de tênis esticassem seus pescoços para as capas coloridas. Esqueçam a timidez, rapaziada. Arrebentem as janelas e levem tudo. Prometo não dar queixa.

      Um ano depois, a coleção de livros continua lá. Poucos questionaram ou notaram sua existência. Apenas alguns amigos, incomodados com a falta de espaço, perguntaram se poderiam sentar sobre eles. Podem, sim, mas muito cuidado com o Dom Casmurro, ainda tenho alguma esperança neste. Para minha surpresa, ontem abri meu porta-malas e descobri o impensável: neste mesmo período, alguém havia roubado meu estepe.

      Talvez seja exatamente isto que o Brasil precise: ficar sustentado em oficinas sociais até que alguém – com mais força, coragem e dedicação - nos salve da nossa própria incapacidade em reagir. Enquanto isso, aguardarei paciente nos acostamentos da vida.

      Sentindo-me traído e culpando Nelson Rodrigues.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 12/12/2007
Reeditado em 12/12/2007
Código do texto: T775066

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 40 anos
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Felipe Valério