UMA NOITE EM JOÃO PESSOA

Neste momento encontro-me em estado de graça, encontro-me enlevada! Parece que minh'alma se desliga de mim e, como que flutuando no ar, empreende uma viagem a esta terra tão paradisíaca quanto real! Então fecho os olhos e ponho-me a sonhar... Sonho com todas as maravilhas aqui existentes:as largas avenidas alegres e perfumadas pela doce fragrância das árvores frutíferas- mangueiras, na sua maioria- que se estendem por toda a cidade; os meigos coqueiros que, em meio ao farfalhar de suas folhas, mansamente parecem sussurrar palavras românticas, enquanto que a suave brisa nordestina toca minha pele com seus delicados dedos mornos... Vejo o mar que, com toda a sua grandiosidade, parece olhar-me com ternura lançando suas brancas ondas sobre a praia como que me convidando a entrar por sua imensidão para, num mergulho abrasador, partilhar seus mistérios...

Ao longe, uma frágil jangada pequenina acena-me com sua vela branca. E as estrelas, altivas e brilhantes, distribuem luminosidade por to-

do o espaço que teima abraçar-me sugerindo breves e inesquecíveis momentos de amor...

No meu sonho, neste mágico devaneio, desvio o olhar para a direita: Cabo Branco, bem ao longe, pisca para Cabedelo que, com toda a sua "Fortaleza", sucumbe ao gigante da Ponta do Seixas e corresponde com outra piscadela, passando a noite a namorarem... Harmoniosos sons -ora melancólicos,ora felizes - contam-me lindas e bravas histórias desta terra querida. São os repentistas que, impregnados de arraigada tradição, compõem

suas melodias calcadas no acirrado amor pelo "querido torrão". E no centro, bem no coração desta cidade que tem muito de "pessoa", tal qual um grande espelho do mais puro e autêntico cristal, majestosamente emerge a Lagoa

Solon de Lucena a refletir em suas águas as esguias e seculares palmeiras

imperiais!

João Pessoa, 18/01/1983

Miriam Panighel Carvalho
Enviado por Miriam Panighel Carvalho em 28/03/2005
Reeditado em 09/11/2005
Código do texto: T8319