POETA ALBERTO DE OLIVEIRA

O VASO GREGO E O PARALELEPÍPEDO

Nelson Marzullo Tangerini

No dia 19 de outubro, fui ao lançamento do livro “Alberto de Oliveira – Antologia Poética”, Seleção, Prefácio e Glossário de Camillo Cavalcanti, na Biblioteca Municipal de Niterói, onde a obra foi lançada, após palestra do Professor Camillo.

Alberto de Oliveira, cujo nome verdadeiro era Antônio Mariano de Oliveira, nasceu em Pontal de Saquarema a 28 de abril de 1857 e faleceu em Niterói, Estado do Rio de Janeiro, a 19 de janeiro de 1937.

Apresentado pelo Professor Camillo como filho de um dos membros do antigo Café Paris, da cidade fundada pelo Cacique Araribóia, não resisti à tentação; levantei-me e acabei declamando, em público, o belíssimo soneto “Céu Fluminense”, o meu preferido:

“Chamas-me a ver o céu de outros países,

Também claros, azuis ou de ígneas cores,

Mas não violentos, não abrasadores

Como este, bárbaro e implacável, - dizes,

O céu que ofendes e de que maldizes,

Basta-me entanto: amo-o com os seus fulgores,

Amam-no poetas, amam-no pintores,

Os que vivem do sonho, e os infelizes.

Desde a infância, as mãos postas, ajoelhado,

Rezando ao pés de minha mãe, que o vejo,

Segue-me sempre... E ora da vida ao fim,

Em vindo o último sono, é meu desejo

Tê-lo sereno assim, todo estrelado,

Ou todo sol, aberto sobre mim”.

Nestor Tangerini, meu pai, ex-membro da roda literária do Café Paris, conheceu pessoalmente, em Niterói, nos anos 20 do século passado, o poeta fluminense.

Achando-se um poeta menor, o piracicabano escreve o pesado e bruto soneto Paralelepípedo em homenagem ao grande poeta parnasiano, que um dia nos deixou um fino, leve e trabalhado Vaso Grego.

O paulista conta-nos sua história :

“Conquanto apreciasse muito a Alberto de Oliveira, que residia em Niterói, Tangerini, que brincava com todo mundo, achou de brincar, também, com Príncipe dos poetas, e escreveu (não sabemos se o notável poeta gostou ou não), sobre o Paralelepípedo”:

“Jóia és. Jóia sendo, alfombras, belo,

As, em que piso, príncipe do verso,

Ruas de Niterói, ninho meu terso,

Onde nasci de, em punho, camartelo.

És um lyrio com “i grego”, lyrio imerso

Da Grécia nos paus, e inspiras melo-

Peias à lira minha. Em doce anelo,

Nela, por ti, mil sons, sons mil disperso.

Dentro, mesmo, da forma, que tens, linda,

Piramidal te me deparas inda,

Para, da minha, orgulhoso, bigodeira.

E, na piramidez platifungente,

És o que eu sou, és, finalmente,

Os versos meus. – Alberto de Oliveira.”

A Roda do Café Paris, encontro de poetas paranasianos niteroienses liderados pelos sonetistas Luiz Leitão e Nestor Tangerini, tem sido estudada por um grupo de abnegados, mas sua produção literária ainda não foi devidamente estudada.

Sobre o poeta fluminense, Tangerini nos conta, ainda, que “Alberto era muito mais poeta do que farmacêutico. Uma tarde, passando Catulo, jovem candidato a poeta, cabotino, pelo nosso Príncipe da Lira, assim o cumprimentou, convencido:

- Boa tarde, colega.

Alberto respondeu-lhe apenas com ligeiro movimento de cabeça, e, perguntou, sisudo, para a pessoa com quem conversava:

- O Catulo é farmacêutico?”

Estamos em 2007. Por que não nos lembramos dos 70 anos da morte do poeta e Acadêmico Alberto de Oliveira?

[Crônica escrita em 2007]

Nelson Marzullo Tangerini, 52 anos, é escritor, jornalista, compositor, fotógrafo e professor de Língua Portuguesa e Literatura. É membro do Clube dos Escritores Piracicaba, onde ocupa a Cadeira 073 – Nestor Tangerini.

n.tangerini@uol.com.br / tangerini@oi.com.br

Nelson Marzullo Tangerini
Enviado por Nelson Marzullo Tangerini em 16/02/2008
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