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FERNANDA MONTENEGRO

O TEMPO ESTÁ CORRENDO DEMAIS...

Nelson Marzullo Tangerini

               A primeira e grande atriz do Teatro Brasileiro Fernanda Montenegro disse, certo dia, uma frase que me deixou a meditar: “O tempo que me resta para viver é menor do que o tempo que eu já vivi.”
               E comecei a pensar, também, numa frase mais áspera do menestrel americano Robert Zimmerman, o Bob Dylan: “Time is a jet plane” -  ou melhor: “O tempo é um avião a jato”.
               A partir da frase de Mr. Zimmerman, escrevi, com o bluseiro Adalberto Barboza, meu parceiro musical, a canção Solos de guitarra para o nosso amor, que fala da correria na vida de um artista:

               “O tempo está correndo demais / preciso te amar / preciso de paz / me alimentar teu corpo lunar / O poeta me avisou / e eu passei a vida inteira / desta maneira / tocando rock´n´roll / Agora é dar um tempo / curtir este momento / sentir o perfume da flor / com solos de guitarra para o nosso amor”.

                Estou hoje com 52 anos e ainda, penso, no meio do caminho - e certo de que ainda encontrarei nele alguma pedra.
                Quando fiz 50, lembro-me, enviei um e-mail para amigos, avisando que era um homem de meia idade.  Estava um tanto assustado. Porque ficamos um pouco inconformados com a idade. Achamos que o tempo correu demais...
                Eu, pessoalmente, acho que poderia estar ainda com uns 30. Affonso Romano de Sant’Anna, generoso, me confortando, respondeu com um rejuvenescedor e-mail: “Tu és ainda um infante”.
               Senti-me, então, um jovem e corajoso navegador português, descobrindo terras de além-mar.
               Affonso é aquele poeta casado com a pintora, escritora e poetisa Marina Colasanti; aquele degustador de palavras que nos diz coisas belas em suas crônicas publicadas, sempre aos domingos, no jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte.

               O tempo está correndo demais...

                Já começo a contar os inúmeros amigos que partiram. Parodiando e pluralizando o escritor e teatrólogo português Luís de Sttau Monteiro, eu diria: Aqueles que “não pertencem mais ao número dos vivos”.
                Caetano Veloso já tentou fazer um acordo com o tempo. Ele é generoso conosco, se formos pensar bem. Envelhece nosso corpo e, ao mesmo tempo, nos dá sabedoria.
                 Os grandes escritores, os grandes poetas, Drummond, Quintana, Borges, entre tantos outros, tornaram-se mais belos e mais sábios, quando a morte já rondava suas vidas.
                  Quando somos jovens, só pensamos na vida, porque esbanjamos vida e saúde.
                   Mas quem já passou dos 80 sabe que a vida é uma pedra preciosa, de rara beleza, uma pedra que foi lapidada homeopaticamente durante uma existência.
                   Falei do rock, no início, porque o rock representava a rebeldia, a saúde, a vida. Estávamos na década de 60 do Século XX e precisávamos nos rebelar contra o estado, contra as ditaduras, contra a Guerra do Vietnã.
                   Mike Jagger, líder dos Rolling Stones disse, certa vez, que “o rock era a forma mais santa que a juventude encontrou para desobedecer ao estabelecido”.
                   E John Lennon, um incorrigível rebelde, temia ficar velho e não entender a rebeldia dos mais jovens.
                   No auge dos Beatles, o guitarrista místico George Harrison, que partiu em 2001, nos deixava uma frase devastadora: “Estamos vivendo como se fôssemos durar para sempre”. Porque eles eram mais famosos que Jesus Cristo, o que Lennon achava um absurdo.
                   Pessoas há que estão vivendo como se nunca fossem partir um dia. Estão iludidas com o sucesso, com as glórias. O tempo nada lhes ensinou.
                   Lembrando uma canção de Belchior: “Nossos ídolos ainda não os mesmos / e as aparências não enganam não”. Todos envelheceram, tornaram-se pais e avôs – ou avós.
                   O livro Apologia de Sócrates, de Platão, nos dá uma grande lição. Sócrates, o cidadão do mundo, aquele que soube extrair do tempo a grande sabedoria, nos dizia que todo ser humano está condenado à morte.
                    Isto significa que devemos viver a vida com moderação, que devemos cuidar muito bem desta pedra preciosa, a ser burilada, chamada vida. Devemos ser honestos e humildes. Devemos amar o próximo. Devemos ser solidários uns com os outros. Uma catástrofe, como aquela que devastou a terra do blues e do jazz, pode vir a qualquer momento.
                    Seria redundante dizer que os bens materiais, as glórias, as medalhas, os diplomas, tudo isto ficará aqui.


Nelson Marzullo Tangerini, 52 anos, é escritor, jornalista, compositor, fotógrafo e professor de Língua Portuguesa e Literatura. É Acadêmico e membro do Clube dos Escritores, onde ocupa a Cadeira 073 Nestor Tangerini.

n.tangerini@uol.com.br / tangerini@oi.com.br



Nelson Marzullo Tangerini
Enviado por Nelson Marzullo Tangerini em 27/02/2008
Código do texto: T877561
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Sobre o autor
Nelson Marzullo Tangerini
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
310 textos (24115 leituras)
9 e-livros (127 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/10/19 21:34)
Nelson Marzullo Tangerini