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REFLEXÕES E QUESTIONAMENTOS

                       

                   
     Quando surgem questionamentos sobre atos dos seres humanos que vivem e se espremem nas cidades, sempre me vem à cabeça uma pergunta:
     Qual seria o real significado e o papel do homem dentro de uma sociedade onde os excluídos sempre são preteridos em todas as políticas adotadas pelos governos?

     Ouvimos alguns falarem sobre coisas que nunca quiseram e se preocuparam e colocam-se perante os pobres desvalidos como seus salvadores. Hoje o grande filão é a pobreza, ela representa mais de dois terços de todas as sociedades onde vivemos.

     Quando me sentei confortavelmente na cadeira de balanço e estiquei as pernas sobre a cadeira que se encontrava a minha frente, passei a analisar detalhes do mundo que me cerca. Enquanto isso eu vou bebendo lentamente uma xícara de café que acabara de ser passada.

     Ao olhar através das portas que se encontravam aberta, vi que a chuva continuava intermitente e em momento dera uma pausa para que  eu pudesse sair  e esticar as pernas que já se encontravam “ cansadas” de tanta inatividade. A poucos metros dali o Araguaia estava “bufando”, saindo do leito, banhando as matas que se encontram à sua margem.

     Olhei para o leste e depois para o oeste, estava procurando um lugar para plantar os pés de gabirobas, evitando plantá-los perto da casa, pois sei que no futuro elas poderão ser restaurantes de cascavéis.
     Os planos que eu havia elaborado no dia anterior ruíram. A chuva continuava a cair sem interrupção, com isso restava-me ficar sentado, fazendo nada, enquanto meu pensamento se deslocava em todas as direções.

     Vez por outra eu via passar velozmente através de meu campo visual seres imaginários que tinham sido criados pelos antigos habitantes daquela região.
     Tudo, no entanto, era apenas um exercício de memória de um pensamento irrequieto que não pára e procura motivos que o possa colocar dentro do contexto de um lugar que já fora habitado por seres tão nobres.
     O som das gotas d’água sobre o telhado e folhas indicava o rumo do tempo, por isso aumentava ainda mais a preguiça.Por diversas vezes fechei os olhos e me vi num mundo fantástico, livre de todos os atropelos da sociedade excludente, que apenas vê o homem pelo que ele tem ou possui.
     Enquanto as horas passavam, um ou outro pássaro distante entoava seu melancólico canto em virtude de um dia triste sem sol. Para a rolinha que continuava a apagar fogo, até que a água era bastante conveniente.
     O “troncho” andava de um lado para o outro e resmungando palavras em tom de desafio, querendo mudar os rumos do tempo e parar a chuva, apenas para sua satisfação.
     Eu, cheio de “compromissos”, apenas sorria, diante da impaciência dele.  Limitava-me a pensar que poderia chover até dois ou três dias seguidos que em nada me afetaria. Estava ali para fugir do carnaval.

     Tinha comida, café e todo conforto de que necessitava, por isso não me preocupava com a chuva, poderia pescar no momento que fosse oportuno e outras vezes até passear.
     No dia seguinte, domingo, embora não tivesse chovido, o rio continuava subir de forma mais lenta, porém contínua.

     Passou mais um dia sem mudança e com chuvas. No início da noite houve uma pequena trégua e algumas estrelas apareceram e enfeitaram o céu que se encontrava já há vários dias  sem luminosidade.
     Pela a madruga a chuva voltou e aumentou minha ansiedade. Queria fazer no dia seguinte alguma coisa, que não fosse apenas olhar o tempo passar lentamente enquanto a chuva caía.

     De manhã cedo, tomei café acompanhado de bolachas e sentei-me novamente na cadeira, esperando que o aumento da luminosidade viesse clarear o dia e parasse de chover. Mas a chuva somente parou depois das dez horas.
     As batidas no pau oco denunciava um pica-pau a procura do  alimento para o sustento  dos filhotes que esperavam no ninho ali perto.

     Alguns papagaios palravam mostrando sua presença ativa, prontos para uma nova refeição da manhã. A brisa trazida pelo vento através das portas mostrava o alto grau de umidade. Deveria estar em torno de 95% e isso provoca mofo em objetos que se encontram longe do sol.
     Por momentos fugi dali e imaginei o mundo lá fora. Como deveriam estar naquele momento, as pessoas que perderam sua capacidade de pensar e cometem toda sorte de absurdos no carnaval. Festa mundana que tomou conta da sociedade, quando algumas pessoas vendem a própria alma para poderem participar dela.

     Novamente voltei para onde estava e imaginei como deveria ser aquele lugar cem anos atrás. Podia até ver a grande quantidade de animais selvagens que passavam e pisavam aquele mesmo lugar onde me encontrava sentado e esperando que a chuva amainasse para ir ao rio pescar o peixe que seria o almoço do dia.

     Meu retorno, antes previsto para terça-feira, seria mudado. Durante toda a noite de segunda para terça a chuva foi intermitente. A estrada ainda sem asfalto ficava intransitável depois de muita chuva.
     Enquanto observo lá fora através da porta, um guaxinim passou rumo ao rio.

     Arroz com maxixe e ovo estrelado, foi o único alimento quente do dia. O peixe que eu queria ficou apenas na vontade.
     Às 11 horas, almocei o delicioso almoço, enquanto lá fora a batucada do pica-pau, parecia dizer que naquele momento também era sua  hora de comer.

     Como um prisioneiro do tempo, vislumbro o lado de fora através das grades da janela. Mesmo preso pela chuva, ainda assim posso viajar aonde quero e nada me detem. Meu pensamento é livre.
     À tarde, quando a chuva deu uma trégua, pude novamente ouvir o piado e o canto de diversos pássaros ali perto. Eles esperavam que a chuva parasse para cantar.

     Às 4 horas da tarde o sol apareceu timidamente, dando alento a todos que se encontravam dentro de suas carapaças sem poderem expor-se. Alguns periquitos passaram voando com sons estridentes, enquanto duas cotias passaram pelo quintal, rumo às abóboras.
     Mais tarde ousei sair e me expor aos frágeis raios do sol que timidamente saíam por detrás das nuvens que se deslocavam de leste para oeste, como se fugissem de alguma coisa.
     As esperanças se renovaram e novamente fui ao quintal com o rastelo em punho e passei a executar tarefas que tinha como objetivo embelezar e dar um novo visual à região. Nos momentos de folga, sempre procurava ser um jardineiro de um jardim ainda incipiente.
     No local onde houvera luxuriosa vegetação, estava sendo plantado um pomar com árvores frutíferas, para tornar mais agradável e saborosa nossa estada ali.

     Enquanto vou observando e anotando tudo em meu pensamento, as angústias vão surgindo quando lembro que outros desmatam e destroem a natureza e nada produzem.
     Meus objetivos se chocam com os dos outros, mas evito palavras que possam ferir. Eu escuto os argumentos e sigo meu caminho, dentro de uma coordenada que tem por objetivo alcançar o equilíbrio.

     Do outro lado da rua, as enormes árvores balançam devido o constante vento que traz as nuvens que tanto nos tem atormentado nestes dias e até aos que necessitam colher o que foi plantado.
     Os interesses de cada um quase sempre são opostos e todos colocam seus objetivos como os melhores e únicos. Num mundo tão desigual e complexo, temos que ser mais tolerantes para que não venhamos nos chocar com aqueles que não comungam nossas idéias.

     Ao imaginar que minha volta depende do tempo, fico apreensivo, pois se a chuva cair durante a noite não terei coragem de me aventurar na estrada, sob pena de pagar um pouco dos meus pecados em algum atoleiro.

     As reflexões que surgiram em decorrência da inatividade ocasionada pelas chuvas serviram para momentos de questionamentos, onde eu vejo uma sociedade ainda sem capacidade de se auto-determinar e ser harmônica com os reinos inferiores.

     Encontramo-nos cercados por todo o tipo de inutilidades, criadas para manter o homem “satisfeito”. Esquecemo-nos de pensar e passamos a desejar tudo que aparece. Agimos como se fôssemos prisioneiros, por isso temos que nos cercar de bugiganga para nos entreter e evitar que a loucura se instale e tome conta de uma alma frágil e atribulada pelas lutas e desigualdades que vê pelo mundo.

     Quando, no entanto, fugimos do “mundo moderno”, ficamos satisfeitos com qualquer coisa que seja realmente útil e tenha por objetivo nos manter harmonizados e integrados com a natureza, que nada nos cobra e retribui de acordo com o que recebe.

     Todos os questionamentos visam equilibrar-nos, dentro de um mundo em completo desequilíbrio. Estamos sendo empurrados para o grande abismo que se vai aumentando,à medida que nos aproximamos dos finais dos tempos.


VEM.27/02/04

Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 24/03/2008
Reeditado em 05/03/2009
Código do texto: T913958

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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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Vanderleis Maia