Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

CAFÉ PARIS - NITERÓI - ANOS 1920

LUIZ DE GONZAGA E A RODA DO PARIS

Nelson Marzullo Tangerini

                   A “Roda do Café Paris” é, sem sombra de dúvida, o maior movimento literário de toda a história de Niterói. Merecia melhor tratamento por parte dos intelectuais ligados à cultura desta cidade.
                   Nem toda produção daquela rapaziada está perdida. Muita coisa ainda circula na mão de colecionadores – entre eles, Mônaco e eu. Este material devia ser resgatado, ir para uma entidade séria, talvez a UFF, e tornar-se livro. Levar está história de Niterói para as escolas e universidades e montar uma exposição sobre o Café Paris se faz necessário.
                   Entre os poetas da “Roda” não havia competição. Havia, sim, uma fraternal democracia entre eles. Apesar de fazerem sátiras, uns dos outros,  como veremos em futuras crônicas, todos se respeitavam e admiravam o talento do amigo.
                      Há anos venho tentando, através da imprensa fluminense, publicar uma poesia inédita de Luiz de Gonzaga dedicada a meu pai.
                   O referido texto, manuscrito, influenciado pela escola simbolista, provavelmente foi produzido numa mesa do Café Paris:
                   Vejamos:

“A UM SONHADOR

            a Nestor Tangerini

E ao fim de tanta luta acerba e vã,
olhas a longa senda percorrida:
longe! os rosais dolentes da manhã
e os evangelhos míticos da vida...

A poeira enluta as curvas dos caminhos,
onde vinhas, contente da viagem,
vendo as moitas curvadas à passagem
e repletas as árvores de ninhos.

Tinhas os olhos cheios desse sonho:
uma alma terna, amante e delicada,
que despontasse como um sol risonho
em uma volta súbita da estrada.
Vinhas colhendo as flores mais formosas
e amando as mais esplêndidas mulheres:
todas tiveste – lindas como as rosas
e desfolhadas como os malmequeres:

Mal sentes hoje o coração inquieto,
ralado pelos longos azedumes,
- cheias as mãos de flores sem perfumes,
- farta a carne de corpos sem afeto.

Longe! os rosais dolentes da manhã
e os evangelhos míticos da vida!
distante! a longa senda percorrida,
onde arrastaste a tua fé pagã...

E enquanto cais, exausto pelas dores,
voltas o olhar e vês, pelos caminhos,
as velhas ramas dando novas flores
e as mesmas moitas cheias de outros ninhos...

Luiz de Gonzaga
Niterói, 4/24.”

                   Em croniqueta publicada, talvez, no jornal O Prélio, no dia 13 de abril de 1926, João da Ponte [pseudônimo de Nestor Tangerini] retrata, com refinado humor, uma momento de descontração entre os rapazes do Café Paris, quando estes comentavam sobre a passagem de um prestidigitador pela antiga capital fluminense.
                  O cronista retribui a poesia do amigo, fazendo o poeta Luiz de Gonzaga, o destaque da crônica:

                   “Quando aqui apareceu o célebre e inesquecível professor Aronaick; porque se não cansassem os jornais de o seu aparecimento comentar divulgando-o como sendo uma das maravilhas do Século XX, não houve, em toda Niterói, gato, cachorro, criança, homem e mulher que assistir não fosse aos belíssimos trabalhos desse moço, por meio de cujo assombroso dom havia já conquistado o título de última palavra em prestidigitação.
                   Não há, nem pode haver, quem disto não se lembre.
                   Foi referindo-se ao hábil e incomparável professor que, ontem, numa roda, alguém, entusiasmado exclamou.
                  - Aquele homem era um verdadeiro assombro! Vi-o transformar, instantaneamente, uma prata de 2 mil réis em uma rosa!
                  - Isso não é vantagem!.... respondeu o poeta Luiz de Gonzaga.
                  - Minha mulher, em menos de um segundo, transforma, brincando, uma nota de cem mil réis em um chapéu”.

                   A referida crônica, recortada por minha avó, Domingas Tambourindeguy Tangerini, chegou até mim com data de publicação, mas sem o nome do jornal. Ainda assim, é um retrato da Niterói dos anos 1920.

Nelson Marzullo Tangerini, 52 anos, é escritor, jornalista, fotógrafo, compositor, poeta e professor de Língua Portuguesa e Literatura. É membro do Clube dos Escritores Pircicaba [ clube.escritores@uol.com.br ], onde ocupa a Cadeira 073 – Nestor Tangerini.

n.tangerini@uol.com.br, tangerini@oi.com.br, nmtangerini@yahoo.com.br
Nelson Marzullo Tangerini
Enviado por Nelson Marzullo Tangerini em 30/03/2008
Código do texto: T923063
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Nelson Marzullo Tangerini
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 63 anos
278 textos (22595 leituras)
1 e-livros (10 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 16/12/18 03:37)
Nelson Marzullo Tangerini