AMOR QUE UNE E AMOR QUE DESUNE
(Pe Antonio Vieira).

(Trechos).
      Começando pelo amor. O amor essencialmente é união, e naturalmente a busca; para ali pesa, para ali caminha, e só ali pára. Tudo são palavras de Platão, e de Santo Agostinho. Pois se a natureza do amor é unir, como pode ser efeito do amor o apartar? Assim é, quando o amor não é extremado e excessivo. As causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários. A dor faz gritar; mas se é excessiva, faz emudecer. A luz faz ver; mas se é excessiva, cega. A alegria alenta e vivifica; mas se é excessiva, mata. Assim o amor: naturalmente une; mas se é excessivo, divide... o amor, diz Salomão, é como a morte. Como a morte, rei sábio? Como a vida, dissera eu. O amor é união de almas; a morte é separação de almas; pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante a morte? O mesmo Salomão se explicou. Não fala Salomão de qualquer amor, senão do amor forte... e o amor forte, o amor intenso, o amor excessivo, produz efeitos contrários. É união, e produz apartamentos. Sabe-se o amor atar, e sabe-se desatar como Sansão: afetuoso, deixa-se atar; forte, rompe as ataduras. O amor sempre é amoroso; mas umas vezes é amoroso e unitivo, outras vezes amoroso e forte. Em quanto amoroso e unitivo, ajunta os extremos mais distantes; em quanto amoroso e forte, divide os extremos mais unidos. Quais são os extremos mais distantes e mais unidos que há no mundo? O nosso corpo, e a nossa alma. São os extremos mais distantes; porque um é carne, outro espírito; são os extremos; porque nunca jamais se apartam. Juntos nascem, juntos crescem, juntos vivem: juntos caminham, juntos param, juntos trabalham, juntos descansam; de noite, e de dia; dormindo e velando: em todo o tempo, em toda a idade, em toda a fortuna: sempre amigos, sempre companheiros, sempre abraçados, sempre unidos. E esta união tão natural, esta união tão estreita, quem divide? A morte. Tal é o amor... O amor, em quanto unitivo, é como a vida; em quanto forte, é como a morte. Em quanto unitivo, por mais distantes que sejam os extremos, ajunta-os: enquanto forte, por mais unidos que estejam, separa-os.
* Note-se aí a grafia do "em quanto" fielmente transcrita conforme a grafia do
    português lusitano à época barroca.




O AMOR É FIM DE QUE A RAZÃO É MEIO.

O amor é fim de que a razão é meio.
Sofrimento e paixão, quem os pondera
E ao instintivo impulso doma a fera
Humana e bestial movida a anseio?

Do amor, pra amar o destino a que veio
Que deste sonho insólito fizera
Uma ilusão da vida, se não era
O enigma da sorte. Isto eu não creio!

Reside o amor na razão de quem vive
A vida inteira amando, e ama o que sente
O humano coração. Nele é que vibra

A emoção no peito  que o  cative
Entre a razão e o vão do inconsciente
Pulsando o coração fibra por fibra.

Hermílio




LordHermilioWerther
Enviado por LordHermilioWerther em 17/11/2010
Reeditado em 19/11/2010
Código do texto: T2621258
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