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A LIBERDADE

DISCURSO ANTOLÓGICO
A LIBERDADE

(Rui Barbosa, Conferência na Bahia, em 1897, na Estante Clássica, vol. I pp. 71,72)

Liberdade! Entre tantos que te trazem na boca sem te sentirem no coração, eu posso dar testemunho da tua identidade, definir a expressão do teu nome, vingar a pureza do teu evangelho; porque no fundo de minha consciência eu te vejo incessantemente como estrela, no fundo escuro do espaço. Nunca te desconheci, nem te trairei nunca, porque a natureza impregnou dos teus elementos a substancia do meu ser. Teu instinto derivou para ele das origens tenebrosas da vida no temperamento inflexível de meu Pai; entre as mais belas tradições da tua austeridade oscilou o meu berço; minha juventude embebeu-se na corrente mais cristalina da tua verdade; a pena das minhas lides aparou-se no fio penetrante do teu amor, e nunca se imbuiu num sofisma ou se dissimulou num subterfúgio, para advogar uma causa que te não honrasse. De posto em posto, a minha ascensão na vida publica se graduou invariavelmente pela das tuas conquistas; as vicissitudes da minha carreira acompanharam o diagrama das alternativas do teu curso; contra os dois partidos que dividia o Império, lutei pela tua realidade sempre desmentida; renunciei por ti às galas do poder, suspiradas por tantos, com que ele me acenou; sozinho, sem chefes nem soldados, tive por ti a fé, que transpõe montanhas; ousei por na funda de jornalista pequenino a pedra, de que zombam os gigantes; aos ouvidos do velho rei, sacrificado pela família, pela corte, pelas facções, vibrei nos teus acentos o segredo da sua salvação e a profecia da sua ruína; na Republica saudei a esperança do teu reinado; quando a República principiou a desgarrar do teu rumo, enchi do teu clamor a imprensa, o parlamento, os tribunais; e, porque eu quisera fundar assim uma escola, onde te sentasses, para ensinar aos nossos compatriotas o exercício viril do Direito, ouvi ressoarem-se no encalço, convertidos em grita de perseguição, os cantos heróicos do civismo, extraídos outrora do bronze da tua égide pelos que combatiam a monarquia à sombra da tua bandeira.
Enquanto a fascinação do teu prestigio podia ser útil a uma deslocação do poder, tua árdua lenda foi o estribilho dos entusiastas, dos ambiciosos e dos iludidos. Mas assim que a vitória obtida sob a tua invocação entrou a ver na tua severidade o limite aos seus caprichos, um culto novo, armado de anátemas contra os espíritos incorruptíveis no teu serviço, começou a contrapor-te as imagens da Republica e da Pátria, dantes associadas à tua, e dela inseparáveis. Eu não podia aceitar o paradoxo e o artifício dessa substituição, porque tu és o centro do sistema, onde ambas essas idéias alongam as suas órbitas; e, no dia em que te apagasses, ou desaparecesses do universo moral, a que presides, incalculáveis perturbações transformariam a ordem das esferas políticas, abismando a Pátria e a Republica no eclipse de uma noite indefinida.
É a falta de crença que cria e mantém a mais perniciosa das castas de que compõem as sociedades: dos indiferentes.
Dante, quando entrou no Inferno, ainda no vestíbulo da morada dos eternos castigos, antes de visitar o vórtice dos nove círculos horríveis, encontrou uma triste multidão, cujos longos gemidos ressoavam no ar escuro, na temerosa noite em que não ardiam estrelas, eram as sombras dos “sem almas”, dos neutros, dos indiferentes, dos que vivem sem merecer louvor nem desprezo.
O mundo está cheio de almas como estas: não são boas nem más; atravessam a existência sem fé, sem entusiasmo, sem ideal – pobre rebanho de consciências débeis, de vontades enfermas, de corações sem asas... Condenou-as Dante, porque elas não aproveitam a vida que Deus lhes concedeu; vivem sem viver, e não deixam no mundo memória sua; e, ao mesmo tempo, as desprezam a Justiça e a Misericórdia.
Os indiferentes são ainda piores do que os maus. Porque os maus podem algum dia ser bons. Mas não pode extrair bondade dos que não são bons nem maus – entes amorfos, indolentes, apáticos, que tem olhos e não querem ver, tem nervos e não querem sentir, tem cérebro e não querem pensar...
Fugir da indiferença, interessar-se por tudo, e ter crença! O pessimismo é uma enfermidade repugnante.
Mário Natho
Enviado por Mário Natho em 21/09/2007
Código do texto: T661820
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Mário Natho
Salvador - Bahia - Brasil, 47 anos
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Mário Natho