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METÁFORAS 
 
Nossa história começa em São José dos Ausentes, RS, na trilha que leva ao Cânion do Pico do Monte Negro (o ponto mais alto do estado – 1403 metros), onde seguiam duas mulheres, aparentando entre setenta a oitenta anos. Uma loira, outra morena; cor distinta na pele, uma vez que, a prata dos cabelos, era igual.
– Querida amiga, sabe que não existe nada mais agradável neste mundo, do que, açoitada pelo vento, subir ao Pico do Monte, em nublada tarde de agosto, curtindo o ar campestre, fatores climáticos que levam qualquer ser humano a um universo poético, arrastando isto aqui – falou a morena apontando para algo que trazia preso às costas. A velhinha loura sorriu e replicou:
– E você percebe que esse prazer aumenta quando, mesmo na falta de Maria Madalena para nos limpar o suor do rosto, encaramos a caminhada, numa boa, em “Papo Família”?
– Qual é, Bárbara, nesta altura do campeonato, família se reduz a filhos, ironizou a morena acrescentando – “Filhos, melhor não tê-los…”
– Mas, “se não tê-los como sabê-los?” perguntou a velhinha marfim, lembrando um número quatro perdido no tempo. Curvando-se um pouco mais, ao peso do fardo que trazia às costas, tropeçou, numa pedra, engoliu um grito de dor, e fazendo uma careta, cantou:

– “No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho”.

E olhando de soslaio para a companheira:
– Canta comigo Jandira, assim a viagem fica mais alegre.
Morena Jandira, apertando os olhos, face à dor causada pela coroa de espinhos rodeando a cabeça: – prefiro declamar minha alegria gritando ao vento:

– “Poeta é um fingidor.
Finge tão perfeitamente…
Finge até a dor que deveras sente.”
 
E falando com seus botões, lembrou dia e hora de cada espinho… Viagens, suas roupas jogadas ao léu, as noites passadas em claro, inúteis discussões, que não levavam a nada, seu PC …um safanão bastou para destruí-lo. Quanto dinheiro gasto, para arrumá-lo.
Diferente de pessoas, máquinas a gente sempre arruma, deixa novinha em folha. Entusiasmada, ergueu a cabeça e repetiu:
– “Finge até a dor que deveras sente…”
A custo, aproximando-se de Bárbara:
– Como vai se portando tua coroa?
Arquejante, a velhinha movendo a cabeça com dificuldade, forçou um sorriso, respondeu:
– Muito bem obrigada, cada espinho no seu devido lugar.
E como não havia de ser… espinho desencanto, espinho exílio, espinho abandono, espinho sonho destruído. Bem feito. Afinal, velha metida, se fazendo,
querendo sonhar… Tentou sacudir a cabeça. Impossível, curvou um pouco o pescoço, na face esboçou um esgar na máscara.
Trocar de casa, uma novinha, ensolarada, piso novo, móveis novos. Logo ela, uma velha, pra que isso? Gastar dinheiro em bobagem? Já não tinha a espera, outra no João XXIII? Cupins? Aprender a conviver com eles, ora bolas. O melhor, amorcegar àquela casa e fim de papo. Soltando uma sonora gargalhada:
 
– “Quanta gente que ri talvez existe
Cuja única ventura consiste
Em parecer aos outros venturosa” .

 
E assim, perdidas em seus pensamentos, ambas continuaram a subida íngreme, em rumo ao topo. Caíram algumas vezes, ergueram-se, em determinado momento; uma troca de olhares marota selou algum acordo, pois, apoiando-se mutuamente, cantaram:

Mal Secreto
 
“Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse.


Se se pudesse o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!


Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!


Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!”
 
E assim, alcançaram o topo do Monte Negro, e assim, para sua surpresa, foram recepcionadas por Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa e Raimundo Correa. Depressa, jogaram ao chão, a cruz e a coroa de espinhos, que nossas heroínas portavam.
Comovidos e felizes, comentavam que, durante a árdua jornada, Bárbara e Jandira aludiram a seus poemas, o tempo todo. O mais entusiasta, dando um passo à frente, falou:
– Oh, sinto-me envaidecido, pois da tríade parnasiana – Alberto de Oliveira, Olavo Bilac e eu, Raimundo Correia, foi um poema meu o escolhido para fechar este trabalho.
Caros leitores, curtam a sonoridade de minhas palavras e de meus versos. Seria decepcionante, para o meu ego, se o poema, aqui transcrito, fosse “Os Sapos”, de Manuel Bandeira.
As duas velhinhas, uma loura outra morena, de São José dos Ausentes? Frio… Vento… muito vento, brincando com as cabeleiras cinza azuladas, subindo, subindo, jogando-as de um lado para o outro entre brancas nuvens cercadas da tão almejada Paz.
 
Ilda Maria Costa Brasil e Alba Pires Ferreira
Enviado por Ilda Maria Costa Brasil em 21/06/2019
Reeditado em 23/06/2019
Código do texto: T6678260
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Ilda Maria Costa Brasil
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
1975 textos (107594 leituras)
6 e-livros (1138 leituras)
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Ilda Maria Costa Brasil

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